Artigos dos bispos

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

 

A Quaresma é um tempo de conversão e de preparação à Páscoa do Senhor. No Brasil nós temos um tema muito importante, que diz respeito à nossa relação social da fé e da caridade, e está sendo aprofundado, estudado nos grupos, nas assembléias, que é o da Campanha da Fraternidade sobre Moradia e Fraternidade. O seu lema é: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Jesus se encarnou na realidade humana e assumiu tudo o que é humano, para dar a todas as pessoas a redenção, a salvação. A Igreja antiga colocou a importância da Quaresma, como período de quarenta dias sendo um período de ascese à Páscoa1, de conversão, de vida nova para o Senhor Ressuscitado dentre os mortos, como primícias de nossa vida futura. A Igreja antiga convocava a todas as pessoas às práticas caritativas.  

Como é que foi a quaresma? 

Segundo Eusébio de Cesareia e também Santo Atanásio, a Quaresma era um período de seis semanas incluída também a própria semana santa, um período de ascese que dizia respeito ao jejum, orações, práticas de caridade e acolhida de pessoas estrangeiras2. Aqui entra a importância da Campanha da Fraternidade deste ano que diz também respeito às pessoas que vinham de outras localidades, países para serem acolhidas e a palavra de Jesus que diz: “Eu era estrangeiro e vós me acolhestes” (Mt 25,35).  

A sua observância  

Segundo alguns estudiosos da Igreja antiga a Quaresma estava sendo observada, assumida a partir da Epifania do Senhor. Ela estava em profunda imitação de Jesus Cristo, que apenas batizado, foi no deserto, para preparar-se para a missão evangelizadora, como Enviado do Pai para a humanidade(cfr. Mt 4, 1-11). A Quaresma era concluída com o batismo e outros sacramentos da Iniciação à Vida Cristã, conferidos aos catecúmenos e às catecúmenas em unidade em a Páscoa do Senhor3. Para outras pessoas a Quaresma foi um período de jejum surgido nos séculos III e IV e oficializada em Nicéia, no ano de 325, por sua natureza ligada à festa móvel da Páscoa4 

O número quarenta 

Santo Agostinho convidava o povo de Deus a viver bem os quarenta dias antes da Páscoa com atitudes de humildade, de amor ao próximo, para viver em comunhão com a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus. O mistério que se celebrava no número quarenta foi porque o próprio Senhor jejuou durante este tempo após o seu batismo. Em comunhão com os catecúmenos, sendo as pessoas que iriam ser batizadas, o Bispo de Hipona convidava as pessoas cristãs também a jejuar e praticar obras de caridade neste período tão importante da vida cristã5 

O tempo da Quaresma

Santo Agostinho também afirmava ao seu povo a necessidade de oferecer a Deus obras que estivessem de acordo com o período especial da Quaresma. Ele tinha presentes a oração, o jejum, a esmola, conforme o Senhor recomendou no evangelho de Mateus, para que tudo se realizasse na maior descrição, e o Pai do céu que vê o que é secreto, dará a recompensa para os seus filhos e filhas (cfr. Mt ). A cada ano havia uma repetição da solenidade da Quaresma na qual Cristo Senhor sofreu por nós na sua única morte. Há uma perpétua memória de sua Paixão, Morte e Ressurreição6 

Ele veio morar entre nós (Jo 1,14)

É o lema que nós refletimos neste período da Quaresma proposto pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) da qual nós estamos unidos e fazemos parte da Igreja do Senhor. Jesus se encarnou na realidade humana, assumindo tudo o que é próprio do ser humano, menos o pecado. Ele nos redimiu dos pecados, venceu a morte e está vivo para nós lutarmos por moradia digna, com políticas públicas que ajudem a todas as pessoas terem uma casa, um local onde possam viver bem e atuar em favor do Senhor, de seu Reino.  

Se a Igreja antiga com os seus pastores exortavam na Quaresma obras de jejum, de oração e de caridade conforme a Palavra do Senhor, hoje a Igreja exorta à práticas de vida, em unidade com as pessoas sofredoras, para que tenham terra, teto, trabalho. Nós somos chamados a viver bem o período da Quaresma em profunda unidade com o Senhor e com todas as pessoas que necessitam de moradia digna, aqui e agora, e um dia na eternidade.   

Dom João Santos Cardoso 
Arcebispo de Natal (RN)

 

A Campanha da Fraternidade 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), convida-nos a olhar para a casa para além de sua dimensão material. A moradia não é apenas abrigo contra a chuva ou o calor; é o lugar onde o ser humano se constitui como pessoa, onde aprende a ser e a pertencer. 

Desde os primeiros anos de vida, é no espaço da casa que se aprende a falar, a confiar, a amar e a conviver. O lar constitui o primeiro ambiente de socialização, o primeiro lugar de proteção e o horizonte inicial de sentido. Ali se formam memórias que acompanham toda a existência. Não é por acaso que, ao recordar a infância, evocamos imagens da casa: a mesa, o quarto, o alpendre onde se relaxava, o quintal onde se brincava e se varria com a vovó usando vassouras improvisadas, o meu pé de laranja lima, os sons e os cheiros que marcaram nossa história. 

A casa é espaço de interioridade. Nela podemos retirar as máscaras sociais e simplesmente ser. No mundo público, muitas vezes desempenhamos papéis; no lar, reencontramos nossa identidade mais profunda. A moradia oferece repouso ao corpo e serenidade ao espírito. Sem essa possibilidade de recolhimento, a pessoa corre o risco de fragmentar-se, vivendo em permanente exposição, o que gera ansiedade, insegurança e desestruturação interior. 

A proteção oferecida pela casa é, portanto, integral: física, afetiva e espiritual. É no ambiente doméstico que se aprende a confiança fundamental na vida. Ali a criança cresce amparada por referências estáveis; ali o idoso encontra cuidado e respeito; ali a família constrói laços de solidariedade e pertença. O lar é o primeiro espaço educativo e a primeira escola de fraternidade. 

Por isso, quando milhões de pessoas vivem em moradias precárias, improvisadas ou instáveis, ou se encontram em situação de rua, não se trata apenas de carência material, mas de uma ferida que atinge a própria constituição da pessoa. A falta de um espaço digno compromete o desenvolvimento humano, fragiliza a vida familiar, enfraquece os vínculos e perpetua ciclos de exclusão. 

O objetivo geral da Campanha da Fraternidade propõe promover “a moradia digna como prioridade e direito”. Tal afirmação toca o coração da dignidade humana. A casa não pode ser reduzida a mercadoria ou privilégio de poucos; é condição essencial para que o ser humano realize sua vocação de sujeito, membro de uma família e cidadão de uma comunidade. 

No mistério da Encarnação, Deus assume a experiência concreta do habitar humano. Jesus cresce em uma casa, participa da vida doméstica, aprende relações no espaço do lar. O cotidiano da casa de Nazaré revela que a vida ordinária é lugar de santificação e de construção da identidade. 

Além disso, é na casa que se aprende a fraternidade. No convívio doméstico exercitam-se a partilha, o perdão, a responsabilidade e o cuidado mútuo. Uma sociedade que nega a muitos o direito à moradia compromete as bases da própria convivência social. 

Defender a moradia digna, portanto, é promover o desenvolvimento integral da pessoa. É reconhecer que o ser humano necessita de raízes, estabilidade e de um espaço onde possa crescer com segurança e esperança. 

A casa não é apenas um teto. É o lugar onde a vida floresce, onde a identidade se consolida e onde o ser humano encontra condições para se tornar plenamente ele mesmo. Onde falta moradia digna, falta também a possibilidade de realização humana. 

Dom Antônio de Assis Ribeiro
Bispo de Macapá (AP)

 

Nossa existência tem seu dinamismo: nascemos, crescemos, vivemos, caducamos e morremos! Mas, é bem verdade que nem todos seguem esse roteiro! Alguns nem nascem e já morrem no ventre materno; outros crescem, mas não vivem… Nem todos caducam, mas da morte ninguém escapa!  

E assim: os anos passam, o físico enfraquece, o corpo adoece, a beleza se esgota e a saúde se perde; o trabalho termina, os negócios entram em crise, o dinheiro some e a fortuna desaba; a força se esvazia, as paixões passam e os prazeres se esgotam; o luxo se vai, a popularidade passa, a fama se acaba e os aplausos cessam; os desejos se frustram, os sonhos se vão e o orgulho se encontra com a morte!  

Mas não estamos abandonados a nós mesmos, à deriva das nossas fragilidades: “Que é o homem, Senhor, para cuidardes dele, que é o filho do homem para que vos ocupeis dele? O homem é semelhante ao sopro da brisa, seus dias são como a sombra que passa” (Sl 143,3-4).  

O sentido da celebração da QUARTA-FEIRA DE CINZAS é aquele de nos recordar que a vida terrena é passageira, fugaz, frágil, vulnerável… As cinzas nos recordam aquilo que passou, que era, aquilo que perdeu todas as suas características específicas como o tamanho, peso, cor, cheiro, beleza, valor…  

As cinzas nos advertem que nossa vida tem uma fonte, tem um sentido, uma meta! As cinzas nos convocam a cultivar a consciência da nossa “provisoriedade existencial”. Viver é estar passando… Mas cuidando do que não passa! Assim como tudo o que passa pelo fogo é reduzido às cinzas, aquele que passa pela morte perde tudo o que é próprio deste mundo!  Somente resta a dimensão espiritual! As cinzas nos recordam o dever de cuidar daquilo que é eterno! 

“Tu reduzes o homem ao pó, dizendo: «Voltem, filhos de Adão!» Mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, uma vigília dentro da noite”… “Setenta anos é o tempo da nossa vida, oitenta anos, se ela for vigorosa. E a maior parte deles é fadiga e sofrimento, passam depressa, e nós morremos” (Sl 90, 3-4.10). Tudo o que é próprio do mundo é provisório! Nós estamos, mas não somos do mundo! (cf. Jo 17,14-16). 

O salmo 90 (89) é uma profunda oração de súplica a Deus em que os fiéis reconhecem diante de Deus a brevidade e fragilidade da vida! Diante dessa realidade tão constrangedora é preciso o dom da fé que nos fornece o sentido da vida para viver serenamente apesar das fragilidades. Por isso os fiéis, em oração, suplicam ao Senhor da vida: “Ensina-nos a contar os nossos anos, para que tenhamos coração sensato!”. E renovam a esperança: “Que a bondade do Senhor venha sobre nós e confirme a obra de nossas mãos” (Sl 90,12.17). 

A fragilidade humana não é maldição, é obra divina, faz parte da nossa condição de criaturas desde o princípio, pois o criador nos formou com uma dupla composição: corpo (dimensão material) – “nos modelou com argila” e alma (dimensão espiritual) – “soprou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7). A quaresma é tempo oportuno para o aprofundamento dessa realidade: tudo em nós depende do “sopro divino”. Por isso, a quaresma, bem-vivida, pode nos ajudar a combater a nossa tendência materialista, a aprofundar a beleza e a necessidade da vida espiritual.  

A tradição bíblica confirma que, sem a fé em Deus, o homem não admite a sua condição de criatura frágil e, ao mesmo tempo, transcendente e imortal. Para aqueles que não tem fé, contemplando a caducidade da vida, a pensam de forma triste e trágica: «Nossa vida é curta e triste: quando chega o fim, não há remédio, e não se conhece ninguém que tenha voltado do mundo dos mortos. Nascemos por acaso, e depois seremos como se nunca tivéssemos existido” (Sab. 2,1-2). Muitos filósofos ateus tiveram o mesmo pensamento, sem fé, vivendo angustiados por causa da fragilidade da existência humana! 

A Celebração do simbolismo das CINZAS tem como objetivo não somente nos levar a reconhecer a natural caducidade da vida material, mas também nos estimula a aprofundar o seu sentido e a nunca perder de vista a nossa vocação à imortalidade. Viemos de Deus e para Deus voltaremos! Aí está a nossa origem e vocação! A quaresma nos convoca a aprofundar a nossa vocação humana: a origem da nossa vida, sua dignidade (quem somos!) e vocação (para onde vamos!). Meditar sobre nós nos leva a oração de ação de graças, louvor e súplicas!  

A nossa vocação à imortalidade feliz, nos recorda a exigência do amor, que nos garante a vida eterna! Portanto a quaresma é tempo oportuno para o exercício da Caridade, do crescimento na capacidade de amar; isso significa necessariamente o compromisso de qualificação da nossa relação com os outros: acolhida, escuta, diálogo, atenção, solidariedade, paciência, perdão, sensibilidade diante das necessidades alheias, compaixão… Não existe autêntica quaresma sem fraternidade, e nem fraternidade sem solicitude para com os outros. Nesse contexto de conversão, a Campanha da Fraternidade nos apresenta, todos os anos, um vasto horizonte de possibilidades. Boa quaresma!