Artigos dos bispos

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG)

 

Toda meta, antes de ser alcançada, pede que seja trilhado um itinerário, passo a passo, até que se alcance o objetivo almejado. Nesta mesma perspectiva, para bem celebrar os mistérios da Páscoa e alcançar uma vida nova, é preciso seguir o caminho de um tempo especial na vida cristã: a Quaresma, com o seu propósito de inspirar a conversão de corações. A reabilitação espiritual é um propósito urgente e sempre necessário, pois alicerça a qualificação da condição humana, ancorando-a em valores e princípios ético-morais. Essa urgência torna-se ainda mais evidente com as derrocadas institucionais e a perda de credibilidade dos órgãos e pessoas públicas, empurrando ainda mais a sociedade aos fracassos e às demoras, com prejuízos aos contextos social, político, ambiental e em todo tipo de relacionamento – familiar, público e institucional.  

Um exemplo muito completo e instigante de itinerário para este tempo da Quaresma é apresentado pelo profeta Isaías, que ecoa a voz de Deus ao indicar a necessidade de destruir os instrumentos de opressão, deixar os hábitos autoritários e a linguagem maldosa, tão comumente empregada, de modo covarde, para se buscar autopromoção ou alimentar o desejo patológico de destruir o semelhante. O itinerário profético lembra a importância de oferecer acolhimento, com o coração aberto, ao indigente, aos necessitados. Os gestos de generosidade levam a um resultado alvissareiro: o brilho da própria luz nas trevas, dissipando o que obscurece a vida por uma luminosidade como o meio-dia. Desdobra-se, pois, a promessa do Senhor que conduzirá a vida de quem solidariamente age. Os generosos têm a sua sede saciada, superando a aridez da própria vida. Experimentam o revigorar do próprio corpo, de modo comparável a um jardim bem regado a partir da fonte de águas que jamais secarão. A Quaresma é um itinerário a ser percorrido reafirmando sempre mais o compromisso de agir com limpidez e honestidade. A partir desse compromisso inegociável, pode-se reconstruir o que hoje é apenas ruínas antigas, respeitando fundamentos edificados em gerações passadas. 

O silêncio quaresmal é também itinerário de grande relevância para oferecer quietude ao próprio coração. Uma quietude qualificante muitas vezes perdida no barulho e na dispersão deste tempo. Assim como o corpo se restaura pelo sono e pelo repouso indispensáveis, a alma e o espírito se restauram pelo silêncio, devolvendo ao ser humano virtudes preciosas, enfraquecidas pelos barulhos de muitas conversas, de dispositivos eletrônicos, de redes sociais. A falta de silêncio causa muitos adoecimentos na atualidade. A Quaresma leva a um deserto que não deve ser temido e não significa fuga das pessoas. Ao contrário: é lugar aonde se vai para aprender como encontrá-las, alcançando mais qualidade nos relacionamentos, revestindo-os de fraternidade solidária.  

Sem o silêncio próprio do tempo quaresmal, se permanece na superficialidade e no comprometimento da qualidade pessoal, são perdidas escolhas adequadas, não se consegue oferecer a palavra certa, no momento certo. Ilusoriamente, pensa-se que o sucesso é alcançado simplesmente com o vigor físico ou intelectual. Desconsidera-se o valor essencial e maior do vigor espiritual, alicerce e alavanca para desempenhos que fazem a diferença. É uma verdadeira tragédia abandonar o caminho que leva ao desenvolvimento espiritual. Um desvio que pode levar o ser humano a se perder no domínio da perversidade, distanciando-se de um modo de viver autêntico, generoso. Sem vigor espiritual, toma conta um exagerado medo de sofrer, um pânico que desespera vidas e banaliza fundamentos essenciais ao viver qualificadamente. Trata-se de verdadeira corrosão que precipita vidas e projetos na superficialidade, nas disputas e na maldade. O preço pago é muito alto e amargo. Para se conquistar envergadura moral e espiritual importa dedicar-se ao silêncio contemplativo. Um exercício que possibilita a escuta interior, aquela que conta e tem mais força que tagarelices e opiniões sem qualidade.  

Entre os itinerários quaresmais inclui-se aquele vivido ao lado dos pais e dos familiares. O contexto familiar é escola que ajuda os filhos na busca pela experiência da fé. Educar para a fé é legado e herança da mais alta importância, pois inspira atitudes orientadas pelo sentido nobre da solidariedade. Itinerários quaresmais, pelo acompanhamento do Mestre e Senhor Jesus, na sua paixão e morte, ensinam a amar a própria pobreza, realidade que, de alguma maneira, une todos os seres humanos, nas perspectivas espiritual ou material. Ele, Cristo, amou a sua pobreza, ao morrer na cruz, como oferta ao seu Pai para enriquecer a humanidade com os tesouros de sua infinita misericórdia. O itinerário quaresmal, assim, fortalece o ser humano na inevitável luta travada em sua própria interioridade, permitindo-o alcançar a vitória pela graça de Deus. Nessa busca interior, o ser humano encontra o que amar de verdade em si mesmo, ponte para o amor aos outros.  

Todos passam pela necessidade de passar por um real processo de transformação para renovar-se espiritual e interiormente. Um caminho essencial por vezes percorrido de modo equivocado, sem os cuidados necessários. O itinerário quaresmal, na sua dinâmica própria, tem uma pedagogia essencial para que ninguém se perca. A sabedoria partilhada pelo Beato Columba Marmion ajuda a viver bem esse itinerário: Assim como a terra tem de passar pela morte do inverno e o grão de trigo tem de morrer antes de produzir frutos, assim a alma humana tem de passar na prensa da tentação e da fraqueza para ser revestida por Cristo de sua virtude e de sua vida divina. Não se pode correr o risco de deixar passar o tempo da quaresma, ignorando a sua especialidade. Isto significa perder a chance de conquistar um novo tempo para a própria vida. Todos são convocados a se inscrever nos itinerários da quaresma e, assim, conquistar mais qualidade humana e espiritual. O renascimento ansiado pelo coração humano pede a vivência deste tempo de itinerários quaresmais. 

 

 

Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)

 

A Campanha da Fraternidade 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), convida-nos a refletir sobre o significado profundo do habitar humano. A moradia não é apenas uma questão social urgente; ela toca a própria estrutura da existência. 

O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), no ensaio Construir, Habitar, Pensar (1951), afirma que “habitar é o modo como os mortais são sobre a terra”. Para ele, o ser humano não simplesmente ocupa um espaço físico; ele habita. E isso não é uma atividade entre outras, mas o modo fundamental de existir: cuidar, preservar e permanecer. 

Heidegger distingue “construir” e “habitar” e recorda que a palavra alemã bauen (construir) está etimologicamente ligada ao verbo “ser” (bin, bist), significando originalmente também “habitar”. Costumamos pensar que primeiro construímos e depois habitamos; o filósofo, porém, inverte essa lógica: construímos porque já habitamos, construímos porque somos. O habitar é originário, e o construir só tem sentido como expressão desse modo de ser que guarda e protege. Assim, construir não é apenas erguer paredes, mas criar condições para uma presença enraizada na terra. 

Na perspectiva heideggeriana, habitar é permanecer de modo atento na “quadratura” — terra, céu, mortais e divinos — vivendo em relação respeitosa com o mundo, reconhecendo limites, vínculos e transcendência. A casa, nesse horizonte, não é mero abrigo funcional, mas o espaço onde essa relação se concretiza. Ela manifesta nossa maneira de estar no mundo: é lugar de memória, de vínculos e de cuidado. Habitar significa, nas palavras do filósofo, “cuidar” (sorgen), proteger o que nos foi confiado. 

Essa compreensão desloca o debate da moradia do plano meramente funcional para o existencial. Quando alguém perde a casa ou vive em condições precárias, não perde apenas um teto: sofre uma ferida existencial. A insegurança da moradia atinge o núcleo da pessoa, comprometendo sua possibilidade de estar no mundo com estabilidade e dignidade. Não se trata apenas de carência material, mas de vulnerabilidade ontológica. Sem um espaço que proteja e acolha, enfraquece-se a capacidade de confiar, sonhar e projetar o futuro. 

A negação da moradia digna não é apenas um problema técnico ou estatístico. O Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2026 recorda que tal situação revela graves insuficiências humanas e sociais. À luz dessa reflexão, trata-se de uma ruptura no enraizamento do existir. Sem um lugar estável, a vida se fragmenta. A ameaça constante de despejo, a condição de rua ou as construções improvisadas impedem a experiência de pertencimento e a construção de sentido. 

A encarnação revela que Deus assume o habitar humano. O Verbo entra na experiência concreta do morar, partilha o cotidiano de uma casa e cresce em um lugar determinado. O mistério cristão confere à moradia dignidade ainda mais profunda: ela se torna espaço de encontro entre o humano e o divino. 

Promover moradia digna, portanto, é garantir condições para que a pessoa exerça plenamente seu modo próprio de existir. Defender a moradia é defender a dignidade do ser humano. Não se trata apenas de assegurar paredes e teto, mas de possibilitar cuidado, estabilidade, vínculos e sentido. Habitar é existir com raízes. Onde falta casa, falta chão para que o ser humano floresça.  

Dom Vital Corbellini
Bispo de Marabá (PA)

 

A Quaresma é um tempo de conversão e de preparação à Páscoa do Senhor. No Brasil nós temos um tema muito importante, que diz respeito à nossa relação social da fé e da caridade, e está sendo aprofundado, estudado nos grupos, nas assembléias, que é o da Campanha da Fraternidade sobre Moradia e Fraternidade. O seu lema é: “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14). Jesus se encarnou na realidade humana e assumiu tudo o que é humano, para dar a todas as pessoas a redenção, a salvação. A Igreja antiga colocou a importância da Quaresma, como período de quarenta dias sendo um período de ascese à Páscoa1, de conversão, de vida nova para o Senhor Ressuscitado dentre os mortos, como primícias de nossa vida futura. A Igreja antiga convocava a todas as pessoas às práticas caritativas.  

Como é que foi a quaresma? 

Segundo Eusébio de Cesareia e também Santo Atanásio, a Quaresma era um período de seis semanas incluída também a própria semana santa, um período de ascese que dizia respeito ao jejum, orações, práticas de caridade e acolhida de pessoas estrangeiras2. Aqui entra a importância da Campanha da Fraternidade deste ano que diz também respeito às pessoas que vinham de outras localidades, países para serem acolhidas e a palavra de Jesus que diz: “Eu era estrangeiro e vós me acolhestes” (Mt 25,35).  

A sua observância  

Segundo alguns estudiosos da Igreja antiga a Quaresma estava sendo observada, assumida a partir da Epifania do Senhor. Ela estava em profunda imitação de Jesus Cristo, que apenas batizado, foi no deserto, para preparar-se para a missão evangelizadora, como Enviado do Pai para a humanidade(cfr. Mt 4, 1-11). A Quaresma era concluída com o batismo e outros sacramentos da Iniciação à Vida Cristã, conferidos aos catecúmenos e às catecúmenas em unidade em a Páscoa do Senhor3. Para outras pessoas a Quaresma foi um período de jejum surgido nos séculos III e IV e oficializada em Nicéia, no ano de 325, por sua natureza ligada à festa móvel da Páscoa4 

O número quarenta 

Santo Agostinho convidava o povo de Deus a viver bem os quarenta dias antes da Páscoa com atitudes de humildade, de amor ao próximo, para viver em comunhão com a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus. O mistério que se celebrava no número quarenta foi porque o próprio Senhor jejuou durante este tempo após o seu batismo. Em comunhão com os catecúmenos, sendo as pessoas que iriam ser batizadas, o Bispo de Hipona convidava as pessoas cristãs também a jejuar e praticar obras de caridade neste período tão importante da vida cristã5 

O tempo da Quaresma

Santo Agostinho também afirmava ao seu povo a necessidade de oferecer a Deus obras que estivessem de acordo com o período especial da Quaresma. Ele tinha presentes a oração, o jejum, a esmola, conforme o Senhor recomendou no evangelho de Mateus, para que tudo se realizasse na maior descrição, e o Pai do céu que vê o que é secreto, dará a recompensa para os seus filhos e filhas (cfr. Mt ). A cada ano havia uma repetição da solenidade da Quaresma na qual Cristo Senhor sofreu por nós na sua única morte. Há uma perpétua memória de sua Paixão, Morte e Ressurreição6 

Ele veio morar entre nós (Jo 1,14)

É o lema que nós refletimos neste período da Quaresma proposto pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) da qual nós estamos unidos e fazemos parte da Igreja do Senhor. Jesus se encarnou na realidade humana, assumindo tudo o que é próprio do ser humano, menos o pecado. Ele nos redimiu dos pecados, venceu a morte e está vivo para nós lutarmos por moradia digna, com políticas públicas que ajudem a todas as pessoas terem uma casa, um local onde possam viver bem e atuar em favor do Senhor, de seu Reino.  

Se a Igreja antiga com os seus pastores exortavam na Quaresma obras de jejum, de oração e de caridade conforme a Palavra do Senhor, hoje a Igreja exorta à práticas de vida, em unidade com as pessoas sofredoras, para que tenham terra, teto, trabalho. Nós somos chamados a viver bem o período da Quaresma em profunda unidade com o Senhor e com todas as pessoas que necessitam de moradia digna, aqui e agora, e um dia na eternidade.