Artigos dos bispos

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Dom Geraldo dos Reis Maia
Bispo de Araçuaí (MG)

 

Este é o título da primeira encíclica do Papa Leão XIV: Magnifica Humanitas. Assim se inicia o documento: “a magnífica humanidade criada por Deus se encontra hoje diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou edificar a cidade santa, onde Deus e a humanidade habitam juntos”. A partir de duas metáforas, Babel e Cidade Santa, o Papa introduz o confronto entre uma construção fundada sobre o poder e a autossuficiência e uma construção baseada na responsabilidade compartilhada e na comunhão. 

Quando o Cardeal Prevost foi eleito Sucessor de Pedro, escolheu o nome de um de seus predecessores que afrontou as coisas novas de seu tempo. Era Papa Leão XIII quem, em 1891, havia publicado uma encíclica que marcou a história da Doutrina Social da Igreja (DSI): a Rerum Novarum, “sobre as coisas novas” daquele final do século XIX, marcado pela Revolução Industrial, pela exploração dos trabalhadores e pelos graves desafios sociais dela decorrentes, além do risco, por outro lado, do sistema comunista que surgia. Enquanto Karl Marx fazia uma leitura sociológica da realidade do mundo, Leão XIII lançava as luzes do Evangelho para iluminar a dura realidade social daquele tempo. 

Agora, Leão XIV alerta o mundo para as coisas novas do tempo presente por meio de sua encíclica programática. Ele apresenta um discernimento sobre o cuidado da pessoa humana na era da Inteligência Artificial (IA), reconhecendo uma profunda mudança de época. Coloca no centro do debate a dignidade do ser humano com critério para orientar o progresso tecnológico. As coisas novas do presente são elencadas como as grandes transformações históricas que interpelam a consciência cristã, marcadas pela expansão acelerada da digitalização, da IA e da robótica, que incidem profundamente sobre as estruturas sociais, os processos decisórios e o imaginário coletivo. O documento ressalta que “nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma”. Isso exige que tal poder seja orientado para o bem comum. 

A encíclica está disposta em cinco capítulos. No primeiro, o Papa trata do método fundamental com que o documento pretende abordar as transformações do tempo presente. A DSI é apresentada não como um conjunto estático de normas e nem como um sistema ideológico a ser aplicado a partir do exterior, mas como um pensamento vivo capaz de ler a história à luz do Evangelho e de acompanhar a humanidade nas suas vivências concretas. Essa visão nasce de uma Igreja que não se coloca fora do mundo, mas que compartilha o caminho dos povos e reconhece na história o lugar no qual o Evangelho interpela a experiência humana. Leão XIV percorre a DSI, de Papa Leão XIII até Papa Francisco, demonstrando que sua função não é substituir as responsabilidades políticas e institucionais, mas apoiar o discernimento comunitário sobre as transformações em curso. 

No segundo capítulo, Leão XIV apresenta os fundamentos e princípios da DSI. No centro da reflexão está uma visão da pessoa humana fundamentada na relação: o ser humano é criado à imagem do Deus trinitário e chamado à comunhão. Dessa origem deriva uma dignidade que precede toda avaliação funcional, produtiva ou social. Ao distinguir diferentes dimensões dessa dignidade, ele enfatiza uma dimensão decisiva, que não depende das capacidades individuais. Afirma, com clareza, que existe “um nível mais profundo, o mais importante, que consiste na ‘dignidade ontológica’”. Essa altíssima dignidade “pertence a todo ser humano simplesmente pelo fato de existir”. É ela que fundamenta o “altíssimo valor dos direitos humanos”, que não são concessões do poder, mas expressão da própria natureza da pessoa, e torna o direito à vida o pressuposto de todos os outros direitos. 

No terceiro capítulo, o Papa aborda a grandeza da pessoa humana diante das promessas da IA. São tratados aqui os temas relacionados à técnica, poder e pessoa humana. As promessas da IA são situadas dentro de uma transformação cultural mais ampla que questiona o próprio sentido do progresso. O desenvolvimento tecnológico é reconhecido como expressão da criatividade humana, mas também se alerta para o risco de que ele se torne critério absoluto de julgamento, dando forma àquilo que o texto define como um paradigma tecnocrático, capaz de reduzir a realidade ao que é mensurável, calculável e otimizável. É dedicado amplo espaço à crítica das narrativas transumanistas e pós-humanistas, que interpretam o progresso como superação dos limites do humano. A elas se opõe uma visão na qual o limite não é um defeito a ser eliminado, mas uma dimensão constitutiva da pessoa. O documento afirma, claramente, que “o ser humano não floresce apesar do limite, mas frequentemente através do limite”, e reconhece na fragilidade e na vulnerabilidade lugares onde amadurecem a relação, o cuidado e a abertura ao outro. 

O quarto capítulo  é um chamado a cuidar do humano na transformação, a partir de tríplice abordagem: verdade, trabalho e liberdade, debruçando-se sobre os efeitos práticos da revolução digital na existência pessoal e coletiva. A reflexão mostra como a IA e as tecnologias digitais não incidem apenas sobre as ferramentas, mas moldam progressivamente os comportamentos, as relações e as estruturas da convivência. O documento afirma que “a qualidade da comunicação pública depende diretamente da confiança social”. Constata também que “os trabalhadores frequentemente são forçados a se adaptar à velocidade das máquinas, em vez de as máquinas serem criadas para auxiliar os trabalhadores”. E adverte que “a liberdade, na era digital, não é apenas uma questão interior: é também uma questão pública”. Em conjunto, a tríplice abordagem revela que a transformação digital não é neutra e exige um esforço coletivo para preservar as condições de uma vida verdadeiramente humana, pautada pela verdade, pelo trabalho digno e pela liberdade real. 

O último capítulo contrasta a cultura do poder com a civilização do amor. Na cultura do poder, a eficácia dos meios tende a substituir o julgamento moral e a proteção das pessoas é subordinada a lógicas estratégicas. Diante desta tendência, o texto afirma claramente que “não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”, reafirmando que o discernimento sobre o uso da força nunca pode ser reduzido a um cálculo técnico. A civilização do amor assume o olhar das vítimas como critério de julgamento e reconhece, na diplomacia e no diálogo, os instrumentos ordinários para a construção da paz. Nesse horizonte, a paz não é sinal de fraqueza, mas uma escolha exigente e realista, pois “com a paz não se perde nada, com a guerra se perde tudo”. 

Por fim, na conclusão, Leão XIV propõe uma espiritualidade para o nosso tempo que parte da  afirmação fundamental de que “o Verbo se fez carne”. Esse é o evento que constitui o critério decisivo para compreender tanto a grandeza quanto a vulnerabilidade do ser humano. Em um tempo marcado pelas promessas de um progresso capaz de superar todo limite, reafirma-se que a plenitude do humano não nasce da potência técnica, mas de uma relação que envolve a liberdade, o amor e a graça. 

A proposta de espiritualidade do Papa não separa a dimensão espiritual da dimensão histórica e social. A humanidade é chamada a reconhecer-se como parte de uma comunhão maior na qual as diferenças não são eliminadas, mas reconduzidas à unidade. Nessa luz, ressoa a imagem paulina de uma humanidade reconciliada, chamada a ser “um só corpo em Cristo”, expressão de uma fraternidade que atravessa povos, culturas e gerações. O compromisso de cuidar do humano na era da IA é assim reconduzido a uma responsabilidade compartilhada. À luz dessa espiritualidade, nasce o convite conclusivo a escolher que tipo de construtores ser na história: “construtores de comunhão, não arquitetos de Babel”, para que a humanidade não perca a sua altíssima dignidade e o mundo possa reconhecer, no coração do homem, o lugar onde Deus deseja habitar. 

Dom Carlos José
Bispo de Apucarana (PR)  

 

Nesta semana, cristãos de diferentes tradições ao redor do mundo se unem em oração durante a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos 2026, renovando um compromisso essencial do Evangelho: caminhar juntos na busca da unidade querida por Cristo. Celebrada entre as Solenidades da Ascensão do Senhor e Pentecostes no hemisfério sul, a semana se torna um forte apelo à comunhão, ao diálogo e ao testemunho comum da fé. Neste ano, o tema “Vocês formam um só corpo e um só espírito” (Ef 4,4) recorda que, apesar das diferenças históricas e confessionais, todos os cristãos são chamados à mesma esperança e pertencem ao mesmo Corpo de Cristo. Promovida mundialmente pelo Conselho Mundial de Igrejas e pelo Dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos, e no Brasil pelo CONIC e pela CNBB, esta semana é muito mais do que um evento anual: é um testemunho de que a oração, a escuta e a fraternidade podem abrir caminhos concretos de reconciliação entre os cristãos. O Papa Leão XIV destacou que os cristãos devem ser “sinal visível de unidade e paz” em um mundo marcado por divisões, conflitos e indiferença religiosa. O Santo Padre recordou que a unidade não nasce da uniformidade, mas da capacidade de reconhecer no outro um irmão que também professa Jesus Cristo. Ao convidar os cristãos à humildade, ao diálogo e à oração comum, o Papa reafirma que o testemunho cristão perde força quando prevalecem a rivalidade, o fechamento e a intolerância. A unidade dos cristãos é, antes de tudo, um dom de Deus e uma tarefa permanente da Igreja. Por isso, a oração ocupa lugar central nesta caminhada ecumênica. Quando comunidades de diferentes tradições cristãs se reúnem para rezar, ouvir a Palavra e refletir juntas, testemunham ao mundo que o Evangelho continua sendo fonte de comunhão e esperança. Também a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil recorda que a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos é um dos momentos mais significativos do ano para a dimensão ecumênica da Igreja. Trata-se de uma oportunidade privilegiada para fortalecer vínculos fraternos, superar preconceitos e construir pontes em um tempo que tantas vezes incentiva divisões. Neste contexto, a unidade cristã não é apenas um ideal distante, mas uma urgência pastoral e missionária. Em uma sociedade marcada pela violência verbal, pela polarização e pelo individualismo, os cristãos são chamados a oferecer um testemunho diferente: o da reconciliação, da escuta e da fraternidade. Que esta Semana de Oração desperte em nossas comunidades o desejo sincero de caminhar juntos, reconhecendo que há “um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4,5). E que, guiados pelo Espírito Santo, possamos ser cada vez mais sinais vivos da paz, da comunhão e da esperança que nascem do próprio Cristo. 

 

 

Dom Antonio Carlos Rossi Keller

Bispo de Frederico Westphalen (RS)

 

A Solenidade de Pentecostes encerra o Tempo Pascal e celebra a descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos reunidos com a Virgem Maria no Cenáculo. Cumpre-se, assim, a promessa de Cristo: “Recebereis o poder do Espírito Santo, que virá sobre vós, e sereis minhas testemunhas” (At 1,8).

Na Primeira Leitura (At 2,1-11), São Lucas descreve o Espírito Santo manifestando-se sob os sinais do vento e do fogo. O vento recorda o sopro criador de Deus; o fogo simboliza sua presença que ilumina e purifica. Os Apóstolos, antes fechados pelo medo, tornam-se testemunhas corajosas da Ressurreição. Pentecostes marca o nascimento missionário da Igreja.

O dom das línguas manifesta também a universalidade da Igreja. Homens de diversas nações compreendem o anúncio do Evangelho. Onde o pecado havia causado divisão, o Espírito realiza a unidade. Ainda hoje, o Espírito Santo é fonte de comunhão, fidelidade e renovação espiritual.

Na Segunda Leitura (1Cor 12,3b-7.12-13), São Paulo ensina que há diversidade de dons e carismas, mas o Espírito é o mesmo. Cada fiel recebe uma missão particular para a edificação do Corpo de Cristo. A verdadeira ação do Espírito nunca produz confusão ou divisão, mas conduz à unidade da fé e da caridade.

A Liturgia de Pentecostes é enriquecida pela belíssima Sequência “Vinde, Espírito de Deus”, uma das mais profundas orações da tradição da Igreja. Nela, o Espírito Santo é invocado como “Pai dos pobres”, “consolador perfeito” e “luz dos corações”. A Sequência exprime a necessidade da graça divina para curar as feridas da alma, fortalecer a fraqueza humana e conduzir os fiéis à santidade.

No Evangelho (Jo 20,19-23), Jesus Ressuscitado aparece aos discípulos reunidos no Cenáculo, concede-lhes a paz e sopra sobre eles, dizendo: “Recebei o Espírito Santo”. Cristo comunica aos Apóstolos a missão de continuar sua obra, especialmente através do perdão dos pecados. Pentecostes revela, assim, que a Igreja vive continuamente da ação santificadora do Espírito Santo.

Celebrar Pentecostes significa abrir o coração à graça divina. O cristão é chamado a invocar diariamente o Espírito Santo, buscar a conversão, viver intensamente os sacramentos e testemunhar o Evangelho no mundo. Num tempo marcado pela confusão moral, pela violência e pelo afastamento de Deus, Pentecostes recorda que somente o Espírito Santo pode renovar verdadeiramente os corações e restaurar a face da terra.

Neste Domingo de Pentecostes, somos também convidados a manifestar concretamente a caridade missionária através da Coleta realizada em todo o Estado do Rio Grande do Sul em favor da Missão mantida pela Igreja gaúcha em Moçambique. Exortamos os fiéis da Diocese de Frederico Westphalen a contribuírem com generosidade para esta importante obra evangelizadora e humanitária. Entre os missionários que ali trabalham se encontra o Pe. Mauro Argenton, sacerdote de nossa Diocese, que dedica sua vida ao anúncio do Evangelho e ao serviço dos irmãos mais necessitados. Ajudemos, com nossa oração e solidariedade, esta missão que é expressão viva do espírito missionário de Pentecostes.

Que Maria Santíssima, presente no Cenáculo junto aos Apóstolos, ajude a Igreja a permanecer dócil à ação do Espírito Santo, vivendo com fidelidade, coragem e santidade a missão recebida de Cristo.