Artigos dos bispos

Dom Rodolfo Luís Weber
Arcebispo de Passo Fundo (RS)

 

Cada domingo a Igreja, através do Credo, professa que Jesus “ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras”. É a renovação semanal da fé em Jesus Cristo morto e ressuscitado. É o acontecimento surpreendente que constitui o fundamento do cristianismo. Tudo na Igreja se compreende e se constrói sobre este grande Mistério que mudou o curso da história e que se torna atual em cada celebração Eucarística. Mas é na Páscoa anual e no Tempo Pascal que é proposto aos fiéis, de modo mais intenso, o Mistério Pascal. É tempo de compreender mais e melhor os fundamentos da fé cristã e poder viver mais fielmente a vida cristã. Toda liturgia do Tempo Pascal canta a certeza e a alegria da ressurreição de Cristo.

Celebrar a Páscoa é renovar a adesão a Cristo que morreu e ressuscitou por nós. A sua Páscoa é também a nossa Páscoa por nos ter dado a certeza da ressurreição. É uma notícia sempre nova, porque Jesus Cristo está vivo. Vivo é seu Evangelho. Viva é a fé dos que o seguem na vida cotidiana. Vivo é o testemunho dos mártires do passado e do presente.

A verdade histórica da ressurreição de Cristo é amplamente documentada pelo testemunho das pessoas que se encontraram com Ele após a ressurreição, como nos atestam as Escrituras. De fato, se faltar na Igreja a fé na ressurreição tudo desmorona. São Paulo, que teve a graça extraordinária de se encontrar com o ressuscitado. Ele não se cansava de repetir que se movia sobre este fundamento. “E se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação, e vã nossa fé. Assim seríamos também considerados falsas testemunhas de Deus, porque testemunhamos contra ele que ressuscitou Cristo” (1 Cor 15,14-15). Uma testemunha não pode mentir. São Paulo não podia mentir sobre o encontro que teve com Cristo ressuscitado que mudou radicalmente o rumo da sua vida.

É o testemunho das Escrituras que nos faz penetrar no Mistério Pascal, fortalecer a fé e aquecer o coração. Na Vigília Pascal e na oitava da Páscoa a liturgia lê e medita os encontros do Cristo ressuscitado com os seus discípulos. Os diálogos, os sentimentos, as reações e as mudanças que vão acontecendo na vida dos discípulos testemunham a total originalidade do acontecimento Pascal.

O evangelista Mateus relata que ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. Um anjo começa a dialogar com elas diante do sepulcro vazio: “Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito. Ide ver o lugar em que ele estava. Ide depressa contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galileia. Lá o vereis”. Enquanto voltavam, Jesus vai ao encontro delas, e disse: “Alegrai-vos”.

São João relata que Pedro e João, quando souberam da ressurreição, correm na direção do sepulcro e o encontram vazio. Nele estavam somente as faixas que envolviam o corpo e o pano que cobria a cabeça. Depois outra Maria vai ao túmulo, chora porque o estava aberto e vazio. Jesus ressuscitado vai ao encontro dela e diz: “Maria”. Ela o reconhece, não pela aparência, mas pela voz.

São João relata outros dois encontros com os discípulos, um no dia da ressurreição e outro oito dias depois. Os discípulos estavam trancados por medo. Jesus entra e os saúda: “A paz esteja convosco”. Mostra as feridas nas mãos e no lado para que Tomé pudesse tocar. Jesus promete o Espírito Santo e os envia em missão para serem ministros da reconciliação. Neste contexto Tomé faz a solene profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus”.

O evangelista Lucas retrata o encontro com os discípulos de Emaús. Profundamente frustrados com a morte do mestre, voltam para Emaús. Jesus ressuscitado vai ao encontro deles e começa um diálogo a partir das Escrituras que falavam a respeito daquele acontecimento. A seguir Jesus ressuscitado oferece o novo sinal da sua presença, a Eucaristia. Abençoa o pão e o vinho e os reparte, como tinha feito na última ceia.

Aqueles encontros dos discípulos com o Cristo ressuscitado fortaleceu de tal modo a fé e o desejo de comunicar e testemunhar este acontecimento que os discípulos se tornaram mártires como Jesus. Jamais renunciaram de noticiar a ressurreição de Jesus, fundamento primeiro da fé cristã.

Desejo uma Santa e abençoa Páscoa!

 

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

A liturgia da Quinta-feira Santa é um convite a aprofundar concretamente no mistério da Paixão de Cristo, já que quem deseja segui-lo deve sentar-se à sua mesa e, com o máximo recolhimento, ser espectador de tudo o que aconteceu na noite em que iam entregá-lo.

E, por outro lado, o mesmo Senhor Jesus nos dá um testemunho idôneo da vocação ao serviço do mundo e da Igreja que temos todos os fiéis, quando decide lavar os pés dos seus discípulos. Esta é a tarde que faz memória da Ceia Pascal de Jesus. Aquilo que o Senhor realizou durante toda a vida e consumou na cruz – isto é, sua entrega de amor total ao Pai, por nós –, Ele quis nos deixar nos gestos, nas palavras e nos símbolos da Ceia que celebrou com os seus. Naquela mesa santa do Cenáculo, estava já presente, em símbolos e gestos, a entrega amorosa do Calvário. É isto que celebramos neste momento sagrado, momento de saudade, de aconchego e de despedida. Era em família que os judeus celebravam o banquete pascal… Jesus celebrou com seus discípulos, conosco, sua família: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”, até o extremo de entregar a vida, pois “não há maior prova de amor que entregar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).

O Evangelho de São João apresenta a Jesus “sabendo que o Pai pôs tudo em suas mãos, que vinha de Deus e a Deus retornava”, mas que, diante de cada homem, sente tal amor que, assim como fez com os discípulos, se ajoelha e lava os seus pés, como gesto inquietante de uma acolhida inalcançável.

Esta é a tarde que faz memória da Ceia Pascal de Jesus. Aquilo que o Senhor realizou durante toda a vida e consumou na cruz – isto é, sua entrega de amor total ao Pai, por nós –, Ele quis nos deixar nos gestos, nas palavras e nos símbolos da Ceia que celebrou com os seus. Naquela mesa santa do Cenáculo, estava já presente, em símbolos e gestos, a entrega amorosa do Calvário. É isto que celebramos neste momento sagrado, momento de saudade, de aconchego e de despedida. Era em família que os judeus celebravam o banquete pascal… Jesus celebrou com seus discípulos, conosco, sua família: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”, até o extremo de entregar a vida, pois “não há maior prova de amor que entregar a vida pelos amigos” (Jo 15,13).

Antes de ser entregue, Cristo se entrega como alimento. Entretanto, nesta Ceia, o Senhor Jesus celebra sua morte: o que fez, o fez como anúncio profético e oferecimento antecipado e real da sua morte antes da sua Paixão. Por isso, “quando comemos deste pão e bebemos deste cálice, proclamamos a morte do Senhor até que ele volte” (1Cor 11,26).

São Paulo completa a representação, lembrando a todas as comunidades cristãs o que ele mesmo recebeu: que, naquela memorável noite, a entrega de Cristo chegou a fazer-se sacramento permanente em um pão e em um vinho que se convertem em alimento, seu Corpo e seu Sangue, para todos os que queiram recordá-lo e esperar sua vinda no final dos tempos, ficando assim instituída a Eucaristia.

A Santa Missa é, então, a celebração da Ceia do Senhor, na qual Jesus, um dia como hoje, na véspera da sua paixão, “enquanto ceava com seus discípulos tomou pão…” (Mt 26,26). Ele quis que, como em sua última Ceia, seus discípulos se reunissem e se recordassem d’Ele, abençoando o pão e o vinho: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19).

Ele deixou-se ficar no pão e no vinho transfigurados pelo seu Espírito Santo, como sacramento do seu Corpo e Sangue, imolado e ressuscitado para ser nossa oferta ao Pai, nosso alimento no caminho e nosso penhor de ressurreição e vida eterna. Quanta gratidão, quanto reconhecimento devem brotar do nosso coração! Seu Corpo por nós imolado, seu Sangue por nós derramado, Jesus por nós entregue – sacramento de um amor eterno, de uma entrega sem fim, de uma presença perene! Comungar hoje do Corpo e do Sangue do Senhor é não somente unir-se a Ele, mas estar disposto a ir com Ele até a cruz e a morte! Não façamos como Pedro, que prometeu, mas não cumpriu e negou o Senhor! “O cálice de bênção que abençoamos não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo?” (1Cor 10,16). Que grande mistério, esta união de vida e de morte com o nosso Senhor pela Eucaristia! Não reneguemos, na vida e nas ações, aquele que hoje nos convida à sua mesa e conosco celebra a sua Páscoa!

Renovo, neste dia de instituição da Eucaristia e do sacerdócio ministerial, o convite do amado Papa Leão XIV para que rezemos pelos sacerdotes em crise. Faço um apelo para que, neste mês, em nossa Arquidiocese, façamos uma campanha de orações em favor dos padres que estão em crise, dos que estão privados de seu ministério e por todos os padres que sofrem todo tipo de doença, enfermidade ou perseguição. Acompanhemo-los com a nossa oração fervorosa!

Aproveito o ensejo para cumprimentar todos os padres, em suas comunidades, para que continuem sendo o bom odor de Cristo, o Bom Pastor, que dá a sua vida pelas suas ovelhas, e que manifestem o amor, a misericórdia e a compaixão do Mestre que nos chama e envia em missão!

Faço o convite: para que, nestes dias, celebremos estes santos mistérios pascais com piedade, espírito de adoração profunda e sincera gratidão para com Aquele que, por nós, quis entregar-se às mãos dos malfeitores e sofrer o suplício da cruz. Não fiquemos indiferentes, não sejamos frios: tudo quanto celebraremos foi por nós que o Senhor instituiu e para nossa salvação que realizou! E que, pela Páscoa deste 2026, Ele se digne conduzir-nos à Páscoa eterna.

 

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO)

Nesta noite santíssima, a Igreja entra no Cenáculo com passos reverentes. O Senhor está às vésperas da paixão.

A cruz já projeta sua sombra comprida e a fraqueza dos discípulos já se anuncia. O mundo prepara-se para ferir o Cordeiro. E, nesse limiar de dor, Cristo realiza um dos atos mais altos e mansos de seu amor ao entrega-se em alimento, em presença que não mais abandonará os seus.

A Quinta-feira Santa é a noite da intimidade divina. O Filho de Deus parte o pão, ergue o cálice e profere palavras que não cessarão de ecoar na vida da Igreja. “Isto é o meu corpo, que é dado por vós.” Este cálice é o meu sangue. E, ao ordenar que façamos isto em sua memória, abre para o futuro um caminho sacramental pelo qual sua entrega permanecerá viva até o fim do mundo.

São Paulo, escrevendo aos coríntios, recebeu e transmitiu esse núcleo da fé. O Apóstolo nos legou a tradição viva que brota do Senhor.

A fé católica reconheceu nesta noite o realismo soberano da presença de Cristo. O pão e o vinho oferecidos pelo Senhor é eficaz e realiza o que diz. Quando Ele pronuncia sobre o pão: “Isto é o meu corpo”, e sobre o cálice: “Este é o cálice do meu sangue”, estamos diante da força criadora do Verbo encarnado. Aquele que chamou o universo à existência por sua palavra, que nesta noite faz do pão e do vinho sacramento verdadeiro de seu Corpo e de seu Sangue.

A grande luz da Quinta-feira Santa nos ensina que Cristo não quis apenas passar pelo mundo, quis ficar nele. A Eucaristia é o excesso de amor pelo qual o Senhor vence a distância, atravessa os séculos e se faz contemporâneo de cada geração de discípulos e discípulas.

Por isso, a Eucaristia está no coração da Igreja como o seu tesouro mais precioso. Nela se conserva uma presença, o próprio Cristo. A Igreja vive da Eucaristia porque vive de Cristo. E Cristo, na Eucaristia, continua a oferecê-la ao Pai, a uni-la ao seu sacrifício e a nutrir-lhe os passos em meio às dificuldades do tempo.

A Quinta-feira Santa revela que a Igreja não nasceu da nostalgia dos discípulos, nem de um esforço humano para manter acesa a memória de Jesus. A Igreja nasce de um gesto do próprio Cristo. É Ele quem a funda, reúne e mantém.

A Igreja é una porque uno é o seu fundador, uno é o pão da vida que a alimenta; una porque é a presença real de Cristo que a sustenta. Sua unidade é uma graça cristológica que procede de Cristo e retorna a Cristo.

Nesta noite, vê-se também a razão pela qual a Igreja confessa sua identidade singular. Ela o faz porque reconhece, em sua própria vida, os sinais permanentes da ação do Senhor. Foi fundada por Cristo e guarda em seu coração a presença real e perpétua de Cristo na Eucaristia.

O Cenáculo, unido à cruz e à manhã da ressurreição, é mais que um episódio comovente da origem cristã. É princípio. É instituição. É vontade divina em ato. O Senhor escolhe os apóstolos, dá-lhes parte em sua missão, faz deles testemunhas e ministros de seus mistérios. A Igreja, portanto, não se explica por si mesma.

Explica-se por Cristo. Seu fundamento não está na oscilação da história, mas no querer do Redentor.

Cristo, porém, não se limitou a fundá-la, mas permaneceu nela. E esta permanência atinge na Eucaristia seu ponto mais alto. Ele está com sua Igreja em sua palavra anunciada, em sua caridade vivida, em seus pobres e sofredores, no coração dos que creem. Mas está de modo eminente, real, substancial e duradouro no Santíssimo Sacramento do altar. A Quinta-feira Santa é a noite em que a Igreja se prosternou pela primeira vez diante desse mistério que jamais a deixaria órfã. Desde então, toda vez que o altar é preparado, toda vez que o pão é consagrado, toda vez que o cálice é elevado, o mundo recebe novamente a consolação de que o Senhor não nos abandonou.

A sucessão apostólica, por sua vez, manifesta que esta permanência não foi deixada à mercê da confusão dos tempos. O mandato “fazei isto” não foi lançado ao vento. Foi confiado aos apóstolos e, por eles, transmitido àqueles que lhes sucederam.

O que a Igreja celebra hoje não vem de uma invenção tardia, nem de uma elaboração devocional acumulada ao longo dos séculos. Vem do Senhor, através da continuidade apostólica. Na sucessão dos bispos, em comunhão com Pedro, a Igreja reconhece a continuidade visível daquela corrente invisível de graça que brotou do Cenáculo. Assim, a mesma Eucaristia instituída por Cristo atravessa o tempo sem perder nada.

A Quinta-feira Santa é, portanto, a noite em que a Igreja contempla ao mesmo tempo seu nascimento, sua unidade e sua missão. Ela se reconhece à luz da Eucaristia e, entende a partir dela sua beleza e sua responsabilidade.

Nesta noite santa, a fé da Igreja não pode ser outra, senão que o Senhor ficou conosco no Pão consagrado, no Cálice da nova aliança, no ministério apostólico transmitido; na una, santa, católica e apostólica Igreja, ficou conosco. E porque ficou, a esperança não morreu; a fé não vacilou; a história não se fechou.

A Quinta-feira Santa é a noite em que a eternidade se assentou à mesa, e, desde então, o mundo nunca mais se sentiu abandonado.