Artigos dos bispos

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Dom Vilson Dias de Oliveira
Bispo Emérito de Limeira (SP)

A Solenidade do Sagrado Coração Jesus celebrada em junho tem como centro a iluminação bíblica de Mateus 11, 25-30. Um convite feito por Jesus e dirigido a todos que, fastidiosos das coisas que passam, ressurgem para o Cristo e seu Reino que não passa. Não se trata aqui de nada estático ou algo próprio de uma visão futurista, como um ponto de chegada à espera por alcance e cruzamento, antes, o convite de Jesus chama a um descanso que não nocauteia, mas que reúne forças para um reerguimento consolidado. 

Nas esteiras do Mundo, em meio aos afãs e aos rompantes da sociedade, cheios de pompas, mas vazios de sentido, o Sagrado Coração de Jesus desponta como um convite à ruptura com o que desgasta inutilmente, fazendo esvair as poucas forças que a humanidade detém, para um salto na direção daquilo que transcende e rompe as cadeias de um solipsismo mascarado de um pseudo empoderamento. Contudo, como bem sugere a canção: “a decisão é tua!” 

Como membros de uma Igreja em saída, cabe a nós, em nosso tempo e com os meios que temos, propagar este convite, convictos de que o mesmo Jesus segue firme como Caminho, Verdade e Vida, ontem, hoje e sempre. Para tal, é necessário, antes de tudo, deixarmo-nos tocar por Ele; tornarmo-nos semelhantes a Cristo, mas não se entenda isto como algo relacionado à aparência, algo de fachada, mas sim como algo a incidir no mais profundo de nós mesmos, a partir daquela instância íntima que em termos bíblicos recebe o nome de “coração”. 

Jesus não era o que era como um mero político ou religioso do tempo, como se podia ver nas figuras populistas e mesmo as impopulares representações do império romano e do templo. Jesus era o que era, o segue sendo e o será por sempre, porque o é desde o seu “coração”, desde o seu íntimo, desde sua instância mais profunda, aquela que como Igreja conhecemos por “núcleo secretíssimo”, lá onde habita Deus, uno e trino, na plenitude do ser humano livre de tudo o mais. Desde aí é que Ele nos faz o então convite, e desde aí somos chamados a celebrar esta Solenidade e a viver a vida livre de meros e vãos desgastes. 

Que a Sagrada Liturgia, vivida não como espetáculo, mas como cerne da vida cristã, nos ajude a obter, por meio de tais mistérios, os preciosos frutos e dons a nós reservados, para que assim, impulsionados pelo Coração Santo, possamos empunhar a Vitória da Paz, do Amor e da Misericórdia, fazendo ressoar mais e mais o convite de Cristo e, por conseguinte, o seu Reino de glória e majestade. Que não nos desgastemos por coisas que passam, mas que sob a guarda de Cristo, recolhidos em seu Sagrado Coração, possamos transbordar forças, mesmo quando o Mundo insiste em nos cansar. 

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

Celebramos no próximo dia 09 de junho, terça-feira, a festa de São José de Anchieta, o santo que foi catequista, fundador, educador e grande missionário – apóstolo do Brasil – aqui em terras brasileiras. Ele teve uma importância muito grande aqui no Brasil logo após o descobrimento, catequizando os indígenas e levando adiante a Palavra de Deus. José de Anchieta pertencia à Ordem dos Jesuítas, a Companhia de Jesus fundada por Santo Inácio de Loyola, e que depois, com seu confrade Manoel da Nóbrega, ajudou a fundar a cidade de São Paulo.

Ele é considerado o missionário do Brasil e mais um santo brasileiro, embora não tenha nascido no Brasil, mas viveu boa parte de sua vida aqui como missionário. Podemos afirmar ainda que Anchieta pode ser o apóstolo Paulo de seu tempo, anunciando o “querigma”, ou seja, Jesus Cristo morto e ressuscitado, para diversas pessoas, para que se convertessem e acreditassem em Jesus, e, a partir de então, fossem batizadas.

São José de Anchieta demorou um pouco para ser canonizado e declarado santo pela Igreja. Ficou um bom tempo como beato e foi proclamado santo pelo Papa Francisco, em 03 de abril de 2014. Mesmo demorando um bom tempo para ser declarado santo, Anchieta sempre foi popularmente bastante cultuado aqui no Brasil e um exemplo para os evangelizadores e catequistas. Que possamos nos inspirar no exemplo de São José de Anchieta e, sem medo, anunciar o Evangelho.

Do mesmo modo que Jesus enviou os discípulos para a missão, soprando sobre eles o Espírito Santo, o Senhor nos envia hoje para sermos mensageiros do Evangelho, portadores da Boa-Nova. Precisamos ser uma Igreja em saída e ir ao encontro dos irmãos e anunciar o Evangelho a quem precisa. Temos que estar abertos à ação do Espírito Santo, a exemplo de Anchieta, que com certeza se fez dócil ao Espírito Santo e abraçou a missão.

A cada ano celebramos com alegria a festa de São José de Anchieta e peçamos a intercessão dele junto a Deus para que não faltem pessoas dispostas a abraçar a missão de serem catequistas em nossas comunidades e ensinar às crianças e aos jovens o amor por Jesus. Rezemos também para que não faltem pessoas dispostas a anunciar a Palavra de Deus e serem missionárias.

O trabalho de evangelização de Anchieta se deu sobretudo com os indígenas, conforme dissemos. Ele viveu quarenta e três anos no Brasil e ajudou na fundação de escolas, igrejas e cidades importantes. A evangelização dos indígenas, inclusive, iniciou com o descobrimento do Brasil, em 1500. Os jesuítas foram chegando à nossa terra e começou a evangelização daqueles que aqui viviam.

São José de Anchieta ingressou na Universidade de Coimbra para estudar Letras e Filosofia. Foi na universidade que ele teve o primeiro contato com a Companhia de Jesus e com o testemunho de São Francisco Xavier. Quando Anchieta estava com dezessete anos, fez uma promessa diante da imagem de Nossa Senhora de abandonar tudo e servir a Deus.

Anchieta entra para a Companhia de Jesus em 1551. Após um período de noviciado exigente e, mesmo com a saúde frágil, fez os seus votos de pobreza, castidade e obediência, em 1553. Nesse mesmo ano, foi enviado ao Brasil e, chegando à Terra de Santa Cruz, começou a evangelizar. Anchieta era fiel à doutrina e à sua Ordem, e, acima de tudo, era fiel ao Espírito Santo. São José de Anchieta tornou-se, além de catequista, dramaturgo, poeta, gramático, linguista e historiador. Vale ressaltar que ele é o autor da primeira gramática brasileira.

Em janeiro de 1554, ele participou da missa da inauguração do Colégio São Paulo de Piratininga, e assim surgiu a cidade de São Paulo, e o local da inauguração ficou conhecido até os dias de hoje como “Pátio do Colégio”. A partir da fundação da cidade de São Paulo, Anchieta e seus companheiros iniciaram a sua missão na cidade. Um grande companheiro de missão de Anchieta era o padre Manoel da Nóbrega. Por isso, temos muito a agradecer a Anchieta, Manoel da Nóbrega e seus companheiros, pois foram apóstolos incansáveis que levavam a Palavra de Deus aos diversos cantos do nosso país.

Entre as características da evangelização de Anchieta e seus companheiros está a catequese, ou seja, eles anunciavam a pessoa de Jesus Cristo aos indígenas e aquilo que continha a Palavra de Deus. Eles testemunhavam os preceitos cristãos, mas sempre respeitando a cultura local. Do mesmo modo que os demais jesuítas, Anchieta se opunha fortemente aos abusos dos portugueses contra os povos indígenas. Anchieta e seus companheiros defendiam o povo indígena e respeitavam a sua cultura. Até porque quem chegou aqui depois foram os portugueses e, em seguida, os jesuítas, ou seja, os indígenas já viviam aqui; por isso, tinha que se respeitar o modo como eles viviam. Anchieta e seus companheiros respeitavam; o que eles faziam era evangelizar e catequizar os indígenas para que conhecessem melhor a Deus, mas sem deixar de lado a cultura. Essa atitude de Anchieta é louvável e é um ensinamento para nós, pois devemos agir dessa maneira: não devemos impor nossa cultura e a maneira de pensar para ninguém, mas nos habituarmos à cultura local.

Por volta do ano de 1563, com o apoio dos franceses, a tribo dos tamoios se rebelou contra a colonização portuguesa. Anchieta e Manoel da Nóbre ga resolveram viajar para ajudar a conter a revolta. Eles foram até a aldeia de Iperoig, que nos dias de hoje é Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. Anchieta se ofereceu como refém e Manoel da Nóbrega foi buscar as tratativas de paz. Anchieta permaneceu no cativeiro por cinco meses e fez uma promessa a Nossa Senhora que lhe escreveria um poema em sua homenagem. Com versos escritos na areia, deu vida ao poema em honra à Virgem Maria. Com isso, vemos que Anchieta e Manoel da Nóbrega foram grandes defensores dos indígenas.

No ano de 1566, Anchieta foi ordenado sacerdote. Três anos após a sua ordenação, fundou o povoado de Reritiba, no Espírito Santo. Em 1577, foi nomeado provincial da Ordem dos Jesuítas no Brasil, função que desempenhou muito bem até 1585. Em 1595, Anchieta retirou-se para Reritiba e ali permaneceu até o seu falecimento, aos 63 anos de idade, em 09 de junho de 1597.

José de Anchieta, desde muito jovem, gostava de escrever poemas e era um amante da arte. Tinha até o apelido de “canarinho”, dado por seus companheiros, devido ao gosto em declamar poesias. Escreveu diversos autos e poemas sobre a vida de Cristo.

Apesar de tudo isso que relatamos sobre a vida de Anchieta, o decreto de sua canonização só foi escrito 417 anos depois de sua morte em 2014, pelo Papa Francisco, em Roma. No relatório final para a aprovação de sua canonização, havia o registro de 5.350 histórias de pessoas que alcançaram graças rezando a São José de Anchieta.

José de Anchieta é considerado o “Apóstolo do Brasil”, mesmo antes de sua beatificação e posterior canonização. Ele foi beatificado pelo Papa João Paulo II, em 22 de junho de 1980, e canonizado em 03 de abril de 2014, através de um decreto assinado pelo Papa Francisco.

Celebremos com alegria a festa de São José de Anchieta na terça-feira, dia 09 de junho, e peçamos a intercessão do santo para que tenhamos o mesmo ardor missionário que ele tinha.

Dom Roberto Francisco Ferreria Paz
Bispo de Campos (RJ)

 

 

Dentro das indicações pastorais sobre o caminho da Ecologia Integral, as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da CNBB, o item “h” , propõe intensificar ações educativas e comunitárias ligadas a  Campanha do Junho Verde que promovida pela nossa Conferência inspirou a lei 14.393/2022, incentivando mutirões ecológicos e momentos de sensibilização e conscientização sobre a Laudato Si e ações de reflorestamento e de limpeza urbana, e rural. Certamente num ano de eleições nacionais está agenda tem que iluminar o discernimento a respeito dos candidatos que se apresentam para cargos executivos e legislativos.  

Esquecer ou negar a grave crise de paradigma civilizatório e humanitário que estamos vivendo será suicida, ouvir o grito da Terra, da água, das criaturas e conhecer com humildade as práticas do bem viver e do bem conviver e cuidar a Criação dos povos originários da Abya Yala nome coletivo dado pelo povo Kuma a todos esses povos e que significa terra madura, terra viva e que floresce, torna-se cada vez mais urgente e necessário.  

Continuar com o estilo de dominação predadora, mercantil e degradante é optar pela autodestruição.  

Votar ou respaldar políticos que não dão a mínima, debocham ou no máximo prometem pífias medidas compensatórias de replantio de árvores é endossar o nosso futuro de refugiados climáticos, de carência de água potável, de alimentação tóxica e insegurança total de moradia.  

Aqueles políticos que pensam na terra só como mercadoria e lucro, estão impedindo o florescimento e existência da vida humana e planetária.  Escolhamos pessoas não apenas honestas e íntegras, mas profetas e artesãos da vida, que ponham sempre as pessoas e a terra em primeiro lugar.  

Não basta crescimento econômico ou desenvolvimento senão se torna sustentável e harmonioso, um planeta onde caibam todos/as como dizia Eduardo Galeano. Finalmente e não menos importante é saber que não existirá paz, se não pactuamos uma aliança de vida como fez Noé com Deus para proteger a toda Criação.  

Hoje não teremos uma nova arca para nos salvar, precisamos sim de nos convertermos em jardineiros e cuidadores da nossa Mãe Terra, também escolhendo bem os nossos representantes, e acompanhando sempre seus projetos, para não só protelar a desastre, mas sermos capazes com a inspiração do Sopro da Vida o Espírito Santo, renovar profundamente a face da Terra. Deus seja louvado!