Artigos dos bispos
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Dom João Santos Cardoso
Arcebispo de Natal (RN)
O próprio título da Encíclica Magnifica Humanitas (MH) constitui uma de suas principais chaves de leitura. Embora trate amplamente da inteligência artificial e da revolução digital, o Papa Leão XIV não escolheu um título centrado na tecnologia, mas na pessoa humana. Poderia, por exemplo, tê-la intitulado “sobre a inteligência artificial”, “sobre a revolução digital” ou “sobre a tecnologia”. Em vez disso, preferiu falar da “Magnífica Humanidade”. A escolha não é casual. Ela revela que a questão central do documento não é tecnológica, mas antropológica.
Desde a introdução da Magnifica Humanitas, Leão XIV afirma que a humanidade se encontra diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova Babel ou construir uma cidade onde Deus e a humanidade habitem juntos (MH 1.7-10). Por isso, a questão fundamental não é simplesmente o que a tecnologia é capaz de fazer, mas que tipo de humanidade estamos construindo por meio dela. Citando São João Paulo II, o Papa retoma uma pergunta decisiva para o discernimento ético do progresso: os avanços tecnológicos tornam a vida humana verdadeiramente mais humana e mais digna do homem? (MH 129).
A pertinência dessa pergunta torna-se ainda mais evidente diante das correntes culturais que acompanham a revolução digital. Leão XIV analisa criticamente o transumanismo e o pós-humanismo, perspectivas que tendem a interpretar o progresso como uma superação da própria condição humana. Enquanto o transumanismo propõe o aperfeiçoamento indefinido do ser humano por meio da tecnologia, buscando superar seus limites biológicos, físicos e cognitivos, o pós-humanismo relativiza a singularidade da pessoa humana, diluindo as fronteiras entre homem, máquina e natureza (MH 120-128). Em ambos os casos, corre-se o risco de considerar a humanidade como uma realidade insuficiente que necessita ser corrigida, substituída ou superada.
É precisamente diante dessas perspectivas que o título Magnifica Humanitas assume sua força profética. Leão XIV recorda que a humanidade não é um projeto fracassado à espera de aperfeiçoamento tecnológico, mas uma realidade magnífica criada por Deus e plenamente revelada em Jesus Cristo. O mistério do homem, afirma o Papa logo no início da Encíclica, somente se esclarece plenamente no mistério do Verbo encarnado (MH 1). Por isso, proclama com vigor: «Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos» (MH 15). A expressão “permanecer profundamente humanos” sintetiza todo o programa da Encíclica. Salvaguardar o humano significa proteger aquilo que nenhuma máquina poderá substituir: a liberdade, a consciência moral, a capacidade de amar, a abertura à transcendência, a responsabilidade ética e a vocação à comunhão com Deus e com os irmãos (cf. MH 11-15; 124-129).
Essa mesma preocupação reaparece na Mensagem para o 60° Dia Mundial das Comunicações Sociais, na qual Leão XIV observa que o desafio da inteligência artificial não é simplesmente tecnológico, mas antropológico. O problema principal não está nas máquinas, mas na forma como elas podem influenciar a compreensão que temos de nós mesmos e das nossas relações. A inteligência artificial não modifica apenas os instrumentos da comunicação; ela pode afetar nossa percepção da realidade, nossa capacidade de discernimento crítico, nossa liberdade interior e até mesmo a autenticidade dos vínculos humanos.
A resposta do Papa não é a rejeição da ciência ou da técnica. Pelo contrário, ele afirma que o humanismo cristão acolhe ambas «com gratidão e realismo» (MH 129), reconhecendo sua contribuição para a medicina, a educação, a pesquisa científica e o desenvolvimento dos povos (MH 97-100). Contudo, adverte que a técnica deve permanecer a serviço da pessoa humana e do bem comum, sem jamais transformar-se no critério último para definir a identidade, a dignidade ou a vocação do ser humano.
A originalidade da Magnifica Humanitas reside precisamente nesta convicção: a grande questão do século XXI não é tecnológica, mas antropológica. O futuro da humanidade dependerá menos da potência dos algoritmos e mais da capacidade de preservar a dignidade da pessoa humana. Em Cristo, a humanidade já encontrou sua forma mais elevada e mais bela. Por isso, diante das promessas e dos riscos da inteligência artificial, a tarefa mais urgente continua sendo permanecer profundamente humanos (MH 15).
Dom Vilson Dias de Oliveira
Bispo Emérito de Limeira (SP)
A Solenidade do Sagrado Coração Jesus celebrada em junho tem como centro a iluminação bíblica de Mateus 11, 25-30. Um convite feito por Jesus e dirigido a todos que, fastidiosos das coisas que passam, ressurgem para o Cristo e seu Reino que não passa. Não se trata aqui de nada estático ou algo próprio de uma visão futurista, como um ponto de chegada à espera por alcance e cruzamento, antes, o convite de Jesus chama a um descanso que não nocauteia, mas que reúne forças para um reerguimento consolidado.
Nas esteiras do Mundo, em meio aos afãs e aos rompantes da sociedade, cheios de pompas, mas vazios de sentido, o Sagrado Coração de Jesus desponta como um convite à ruptura com o que desgasta inutilmente, fazendo esvair as poucas forças que a humanidade detém, para um salto na direção daquilo que transcende e rompe as cadeias de um solipsismo mascarado de um pseudo empoderamento. Contudo, como bem sugere a canção: “a decisão é tua!”
Como membros de uma Igreja em saída, cabe a nós, em nosso tempo e com os meios que temos, propagar este convite, convictos de que o mesmo Jesus segue firme como Caminho, Verdade e Vida, ontem, hoje e sempre. Para tal, é necessário, antes de tudo, deixarmo-nos tocar por Ele; tornarmo-nos semelhantes a Cristo, mas não se entenda isto como algo relacionado à aparência, algo de fachada, mas sim como algo a incidir no mais profundo de nós mesmos, a partir daquela instância íntima que em termos bíblicos recebe o nome de “coração”.
Jesus não era o que era como um mero político ou religioso do tempo, como se podia ver nas figuras populistas e mesmo as impopulares representações do império romano e do templo. Jesus era o que era, o segue sendo e o será por sempre, porque o é desde o seu “coração”, desde o seu íntimo, desde sua instância mais profunda, aquela que como Igreja conhecemos por “núcleo secretíssimo”, lá onde habita Deus, uno e trino, na plenitude do ser humano livre de tudo o mais. Desde aí é que Ele nos faz o então convite, e desde aí somos chamados a celebrar esta Solenidade e a viver a vida livre de meros e vãos desgastes.
Que a Sagrada Liturgia, vivida não como espetáculo, mas como cerne da vida cristã, nos ajude a obter, por meio de tais mistérios, os preciosos frutos e dons a nós reservados, para que assim, impulsionados pelo Coração Santo, possamos empunhar a Vitória da Paz, do Amor e da Misericórdia, fazendo ressoar mais e mais o convite de Cristo e, por conseguinte, o seu Reino de glória e majestade. Que não nos desgastemos por coisas que passam, mas que sob a guarda de Cristo, recolhidos em seu Sagrado Coração, possamos transbordar forças, mesmo quando o Mundo insiste em nos cansar.
Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)
Celebramos no próximo dia 09 de junho, terça-feira, a festa de São José de Anchieta, o santo que foi catequista, fundador, educador e grande missionário – apóstolo do Brasil – aqui em terras brasileiras. Ele teve uma importância muito grande aqui no Brasil logo após o descobrimento, catequizando os indígenas e levando adiante a Palavra de Deus. José de Anchieta pertencia à Ordem dos Jesuítas, a Companhia de Jesus fundada por Santo Inácio de Loyola, e que depois, com seu confrade Manoel da Nóbrega, ajudou a fundar a cidade de São Paulo.
Ele é considerado o missionário do Brasil e mais um santo brasileiro, embora não tenha nascido no Brasil, mas viveu boa parte de sua vida aqui como missionário. Podemos afirmar ainda que Anchieta pode ser o apóstolo Paulo de seu tempo, anunciando o “querigma”, ou seja, Jesus Cristo morto e ressuscitado, para diversas pessoas, para que se convertessem e acreditassem em Jesus, e, a partir de então, fossem batizadas.
São José de Anchieta demorou um pouco para ser canonizado e declarado santo pela Igreja. Ficou um bom tempo como beato e foi proclamado santo pelo Papa Francisco, em 03 de abril de 2014. Mesmo demorando um bom tempo para ser declarado santo, Anchieta sempre foi popularmente bastante cultuado aqui no Brasil e um exemplo para os evangelizadores e catequistas. Que possamos nos inspirar no exemplo de São José de Anchieta e, sem medo, anunciar o Evangelho.
Do mesmo modo que Jesus enviou os discípulos para a missão, soprando sobre eles o Espírito Santo, o Senhor nos envia hoje para sermos mensageiros do Evangelho, portadores da Boa-Nova. Precisamos ser uma Igreja em saída e ir ao encontro dos irmãos e anunciar o Evangelho a quem precisa. Temos que estar abertos à ação do Espírito Santo, a exemplo de Anchieta, que com certeza se fez dócil ao Espírito Santo e abraçou a missão.
A cada ano celebramos com alegria a festa de São José de Anchieta e peçamos a intercessão dele junto a Deus para que não faltem pessoas dispostas a abraçar a missão de serem catequistas em nossas comunidades e ensinar às crianças e aos jovens o amor por Jesus. Rezemos também para que não faltem pessoas dispostas a anunciar a Palavra de Deus e serem missionárias.
O trabalho de evangelização de Anchieta se deu sobretudo com os indígenas, conforme dissemos. Ele viveu quarenta e três anos no Brasil e ajudou na fundação de escolas, igrejas e cidades importantes. A evangelização dos indígenas, inclusive, iniciou com o descobrimento do Brasil, em 1500. Os jesuítas foram chegando à nossa terra e começou a evangelização daqueles que aqui viviam.
São José de Anchieta ingressou na Universidade de Coimbra para estudar Letras e Filosofia. Foi na universidade que ele teve o primeiro contato com a Companhia de Jesus e com o testemunho de São Francisco Xavier. Quando Anchieta estava com dezessete anos, fez uma promessa diante da imagem de Nossa Senhora de abandonar tudo e servir a Deus.
Anchieta entra para a Companhia de Jesus em 1551. Após um período de noviciado exigente e, mesmo com a saúde frágil, fez os seus votos de pobreza, castidade e obediência, em 1553. Nesse mesmo ano, foi enviado ao Brasil e, chegando à Terra de Santa Cruz, começou a evangelizar. Anchieta era fiel à doutrina e à sua Ordem, e, acima de tudo, era fiel ao Espírito Santo. São José de Anchieta tornou-se, além de catequista, dramaturgo, poeta, gramático, linguista e historiador. Vale ressaltar que ele é o autor da primeira gramática brasileira.
Em janeiro de 1554, ele participou da missa da inauguração do Colégio São Paulo de Piratininga, e assim surgiu a cidade de São Paulo, e o local da inauguração ficou conhecido até os dias de hoje como “Pátio do Colégio”. A partir da fundação da cidade de São Paulo, Anchieta e seus companheiros iniciaram a sua missão na cidade. Um grande companheiro de missão de Anchieta era o padre Manoel da Nóbrega. Por isso, temos muito a agradecer a Anchieta, Manoel da Nóbrega e seus companheiros, pois foram apóstolos incansáveis que levavam a Palavra de Deus aos diversos cantos do nosso país.
Entre as características da evangelização de Anchieta e seus companheiros está a catequese, ou seja, eles anunciavam a pessoa de Jesus Cristo aos indígenas e aquilo que continha a Palavra de Deus. Eles testemunhavam os preceitos cristãos, mas sempre respeitando a cultura local. Do mesmo modo que os demais jesuítas, Anchieta se opunha fortemente aos abusos dos portugueses contra os povos indígenas. Anchieta e seus companheiros defendiam o povo indígena e respeitavam a sua cultura. Até porque quem chegou aqui depois foram os portugueses e, em seguida, os jesuítas, ou seja, os indígenas já viviam aqui; por isso, tinha que se respeitar o modo como eles viviam. Anchieta e seus companheiros respeitavam; o que eles faziam era evangelizar e catequizar os indígenas para que conhecessem melhor a Deus, mas sem deixar de lado a cultura. Essa atitude de Anchieta é louvável e é um ensinamento para nós, pois devemos agir dessa maneira: não devemos impor nossa cultura e a maneira de pensar para ninguém, mas nos habituarmos à cultura local.
Por volta do ano de 1563, com o apoio dos franceses, a tribo dos tamoios se rebelou contra a colonização portuguesa. Anchieta e Manoel da Nóbre ga resolveram viajar para ajudar a conter a revolta. Eles foram até a aldeia de Iperoig, que nos dias de hoje é Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. Anchieta se ofereceu como refém e Manoel da Nóbrega foi buscar as tratativas de paz. Anchieta permaneceu no cativeiro por cinco meses e fez uma promessa a Nossa Senhora que lhe escreveria um poema em sua homenagem. Com versos escritos na areia, deu vida ao poema em honra à Virgem Maria. Com isso, vemos que Anchieta e Manoel da Nóbrega foram grandes defensores dos indígenas.
No ano de 1566, Anchieta foi ordenado sacerdote. Três anos após a sua ordenação, fundou o povoado de Reritiba, no Espírito Santo. Em 1577, foi nomeado provincial da Ordem dos Jesuítas no Brasil, função que desempenhou muito bem até 1585. Em 1595, Anchieta retirou-se para Reritiba e ali permaneceu até o seu falecimento, aos 63 anos de idade, em 09 de junho de 1597.
José de Anchieta, desde muito jovem, gostava de escrever poemas e era um amante da arte. Tinha até o apelido de “canarinho”, dado por seus companheiros, devido ao gosto em declamar poesias. Escreveu diversos autos e poemas sobre a vida de Cristo.
Apesar de tudo isso que relatamos sobre a vida de Anchieta, o decreto de sua canonização só foi escrito 417 anos depois de sua morte em 2014, pelo Papa Francisco, em Roma. No relatório final para a aprovação de sua canonização, havia o registro de 5.350 histórias de pessoas que alcançaram graças rezando a São José de Anchieta.
José de Anchieta é considerado o “Apóstolo do Brasil”, mesmo antes de sua beatificação e posterior canonização. Ele foi beatificado pelo Papa João Paulo II, em 22 de junho de 1980, e canonizado em 03 de abril de 2014, através de um decreto assinado pelo Papa Francisco.
Celebremos com alegria a festa de São José de Anchieta na terça-feira, dia 09 de junho, e peçamos a intercessão do santo para que tenhamos o mesmo ardor missionário que ele tinha.
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Em português, o Pontífice reforçou os ensinamentos da Igreja em relação à família, como essencial célula para a sociedade. Por isso, segundo ele, deve ser defendida e promovida. Além disso, o Santo Padre destacou o papel das famílias na evangelização. Evento teve a participação de maisRead More
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Dando continuidade à série de lives “Edificar igrejas para celebrar o mistério da nossa fé”, será realizada, no próximo dia 28 de maio, às 16h, mais uma edição do encontro promovido pela Equipe de Reflexão do Setor Espaço Litúrgico da Comissão para a Liturgia da CNBB. A iniciativa sRead More
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A Equipe de Animação da Rede Clamor Brasil se reuniu para discutir ações e prioridades no atendimento a migrantes, refugiados e vítimas de tráfico de pessoas. O encontro contou com a presença do Núncio Apostólico no Brasil, dom Giambattista Diquattro; do secretário-geral da CNBB, dom RicaRead More
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O cartaz aprovado no Consep tem em seu centro a Sagrada Família com o Menino Jesus recém-nascido abrigada numa barraca de lona, na periferia de uma grande cidade. A ideia originária do cartaz parte da tenda, numa ponte entre a Campanha da Fraternidade desse ano e a Campanha da Fraternidade do anoRead More
A primeira reunião do Conselho Gestor do Fundo Nacional de Solidariedade para avaliar projetos relacionados à CF 2026 foi realizada na última segunda-feira, 25 de maio. O valor total correspondente aos 26 projetos aprovados é de R$ 983.074,92. Quantia deve beneficiar diretamente, segundo o DeparRead More
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Realizada nas celebrações de Domingo de Ramos, a coleta é o gesto concreto da Campanha da Fraternidade, nascida com o objetivo de promover a fraternidade e sustentar a ação caritativa da Igreja no Brasil. O convite é transformar a prática da esmola quaresmal em ação concreta para a mudançaRead More
Inspirada pela Campanha da Fraternidade 2026, a iniciativa “Um real, um recomeço” surge como um gesto concreto de solidariedade para enfrentar a realidade da falta de moradia digna. A proposta busca mobilizar fiéis, comunidades de fé e instituições em torno da construção de 105 casas popuRead More
Em algumas realidades do Brasil, já é possível ver experiências inspiradoras de grupos que se empenham em ações para garantir um lar digno para viver e se desenvolver como pessoa e em família. O jornalista Daniel Gomes, do Jornal O São Paulo, da Arquidiocese de São Paulo, apresentou alguns Read More
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Com a inspiração do tema “Fraternidade e Moradia”, o projeto “Cada paróquia, um mutirão por moradia” tem o objetivo de buscar viabilizar a solidariedade, diante do grave cenário no qual cerca de 26 milhões de famílias brasileiras vivem em moradias precárias ou inadequadasRead More
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