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Cardeal Dom Avelar: uma estrela no céu

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Dom Murilo Krieger
Arcebispo de São Salvador e Primaz do Brasil

Quarta-feira passada, dia de Santo Antônio, nossa Arquidiocese celebrou um fato histórico: o centenário de nascimento de seu 24º Arcebispo Metropolitano, o Cardeal Dom Avelar Brandão Vilela. Uma santa Missa, celebrada na Catedral, no próprio dia 13, uniu um grande número de amigos deste bispo que tanto amou a Bahia e os baianos. Com muita propriedade, lê-se na pedra de sua sepultura, na Capela S. José, à esquerda de quem entra na Catedral: “A Bahia o amou em vida; pranteou-lhe a morte; cultua-lhe a memória e crê em sua ressurreição”.

O profeta Daniel, antecipando nossa ressurreição no final dos tempos, escreveu que naquele dia os que estiverem dormindo no pó da terra acordarão, uns para a vida, outros para a rejeição eterna. E completou: “Os que educaram a muitos para a justiça brilharão para sempre como estrelas” (Dn 12,3). O Cardeal Avelar foi um desses educadores.

Certamente, muito poderá ser dito e escrito sobre esse pastor, que era um e era múltiplo. Era múltiplo pela diversidade de campos em que atuou; era um porque nele tudo se unia no mesmo ideal: Jesus Cristo.  Toda a sua vida foi dedicada ao Reino de Deus. No final de seus dias, marcados pela enfermidade, deve ter-se aprofundado na certeza de que, para Deus, mais importante não é o tempo de vida que alguém lhe doa; importante é a intensidade do amor.

“Os que educaram a muitos para a justiça brilharão para sempre como estrelas”. É imensa a dívida de gratidão de nossa Arquidiocese Primaz para com o Cardeal Avelar. Essa dívida me faz recordar uma observação feita pelo Bem-aventurado Papa João Paulo II, quando preparava a Igreja para o jubileu do ano 2000. Tendo diante de si o grande número de mártires, de várias partes do mundo, ao longo do segundo milênio da era cristã, observou que o testemunho deles, dado por amor a Cristo, até o derramamento do sangue, tornou-se um patrimônio comum da Igreja. “É um testemunho que não pode ser esquecido” (TMA, 37). João Paulo II pedia, então, que as Igrejas locais tudo fizessem para guardar essa memória, recolhendo a necessária documentação a respeito. Afinal, proclamando e venerando a santidade de seus filhos e filhas, a Igreja presta suprema honra ao próprio Deus.

O Cardeal Avelar não foi um mártir, é verdade. Deixou-nos, sim, inúmeros testemunhos de amor e de bondade. Quantas histórias a seu respeito teriam para nos contar aqueles que o conheceram – e histórias interessantíssimas! São histórias marcadas por um grande amor à justiça e à paz. No centenário de seu nascimento, de diversas maneiras estamos procurando recordar alguns dos muitos aspectos de sua rica personalidade. Afinal, ele foi, por quinze anos, de 1971 a 1986, responsável por esta Arquidiocese Primaz. Nesse nosso esforço de preservar sua memória, sirva-nos de base uma sábia observação da pequena Bernadete, testemunha dos acontecimentos em Lourdes - França, na metade do século XIX: “Quando se for escrever a história daquilo que aqui aconteceu, que se procure ser fiel à verdade, unicamente à verdade”. A verdade que surge ao nos debruçarmos sobre Dom Avelar é a de um homem cheio de entusiasmo, com grande capacidade de acolhida, uma pessoa capaz de alegrar-se com os que se alegravam e de chorar com os que choravam (cf. Rm 12,15).

Seu testamento resume as lições de vida que procurou dar ao longo de seus passos. Reproduzo algumas frases: “A morte é irmã da vida. É ressurreição. É transfiguração. Perdôo a todos os que me ofenderam. Peço perdão a quem porventura tenha ofendido. Declaro-me um homem feliz, porque consegui identificar-me com a minha vocação, apesar de minhas falhas. O que pude acumular de conhecimentos foi fruto da vontade férrea de servir à Igreja e a Cristo. Deixo para todos a Paz que sempre procurei transmitir e a Bênção que sempre procurei dar”.

"Os que educaram a muitos para a justiça brilharão para sempre como estrelas”. No firmamento celeste, brilhará uma estrela que nos é conhecida, porque fez parte de nossa Historia. Não é esse um belo incentivo para também nós educarmos a muitos para a justiça?...

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