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Rio+20: Esperança ou decepção?

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Dom Francisco Biasin
Bispo de Barra do Piraí/Volta Redonda (RJ)

Apagados os holofotes sobre a Rio +20 é possível refletir sobre este evento e sobre a Cúpula dos Povos com maior objetividade e quem sabe, tirar algumas lições de vida, assim como lançar um olhar em perspectiva de futuro sobre a humanidade e a preservação do planeta terra através de uma economia sustentável.

É unanime a constatação que no Documento oficial da Conferência, assinado pelos representantes oficiais das Nações, não houve grandes avanços no compromisso de preservar o planeta terra da devastação e do aquecimento, aliás adiou-se para o próximo futuro e para outras Conferências a agenda sobre estes assuntos de primária importância.

Sintomática foi à presença dos Estados Unidos, país que mais polui no planeta, cujo representante oficial Hillary Clinton, ao chegar de última hora, fez um pronunciamento sem compromisso nenhum, a não ser uma insignificante ajuda aos países da África. Arrancou uma salve de palmas ao tornar-se defensora dos “direitos reprodutivos” da mulher, tema muito polêmico debatido na Cúpula dos Povos, desviando assim a atenção dos reais problemas da pobreza global, da falta de água potável para 600 milhões de seres humanos no planeta e da fome que assola a terra em várias regiões, sobretudo da África, da Ásia e da América Latina.

Participei da Cúpula dos Povos, no Fórum das “Religiões por direitos” que viu reunidos líderes de várias Religiões que se empenham na preservação do meio ambiente, colocando a pessoa humana no centro do ecossistema.

Com eles celebramos, a partir das escrituras e das tradições de cada credo! O refrão que ecoou na celebração de tradição judaica cristã foi o início do salmo 8: “Ó Senhor, nosso Deus, como é grande vosso nome por todo o universo!”

Houve também uma mesa redonda, promovida pela Comissão Episcopal Pastoral de Ecumenismo e Diálogo interreligioso, onde cada líder religioso apresentou o compromisso da sua Igreja ou religião na preservação da natureza para uma economia sustentável.

Com alegria coube-nos:

1. Anunciar a Boa nova do destino universal dos bens e da ecologia como oportunidade única diante da sensibilidade da humanidade e dos pobres de pleitar uma nova ordem econômica, frisando a estreita interdependência entre os seres humanos  e todos os outros seres vivos  no planeta terra.

2. Reconhecer que a criação é o primeiro sacramento da bondade e da beleza do Criador, sinal do seu amor providente pelas criaturas. É vista como “casa comum” onde acontece a aliança de Deus com a humanidade e com todos os seres criados.

3. Reconhecer também que sensibilidade ecológica abre os nossos olhos de crentes para que possamos enxergar a presença de Deus Criador e Pai que sustenta cada criatura e todo a criação, proporcionando-nos assim uma nova compreensão do universo. Deus continua criando e acompanha a sua criação e, a partir dela, faz ouvir a sua voz. (Salmo 19, 1-5)

4. Valorizar a ecologia como base comum que facilita o diálogo universal. Homens e mulheres de diferentes ideologias, de diferentes credos religiosos e de diversas culturas, diante da responsabilidade que tem para garantir o futuro da humanidade e dos perigos que ameaçam o planeta terra, constroem uma plataforma comum para dialogar e poder olhar na mesma direção para defender a casa comum.

5. Apresentar, enfim o grito dos pobres que mais sofrem com as mudanças climáticas provocadas pelo uso mercantilizado da terra, das florestas, das águas dos rios e das riquezas do subsolo. Defender a biodiversidade e os biomas para garantir o equilíbrio ecológico contra o uso predatório provocado por interesses econômicos. Favorecer estilos de vida sóbrios e saudáveis baseados em relações de fraternidade e respeito não apenas entre os seres humanos, mas também com a criação, inspirando-nos no testemunho de São Francisco.

Olhando para o evento da Rio+20, para os resultados alcançados ou as reações que ele provocou, ficam algumas interrogações: avançamos ou recuamos? Temos razões para esperar ou motivos mais graves para nos preocupar? O grito dos povos chega às instâncias das decisões dos que detém o poder econômico e político?

Trata-se de interrogações que exigem um posicionamento que para nós discípulos do Senhor não pode ser apenas ideológico, mas de fé.

Para nós que cremos a criação é dom de Deus Criador e Pai. Um dom não se estraga nunca, sobretudo quando ele é necessário para a nossa vida. Dom Helder Câmara chamava o homem de co-criador no sentido que ele é chamado a aperfeiçoar com sua inteligência o dom recebido, descobrindo a perfeição que existe nas leis que regem o universo. Daí é que surge a nossa luta e o nosso compromisso para a salvaguarda da criação, pois ela é de Deus e casa comum para todos!

Ninguém pode nos proibir de sonhar que, ao término da história, possamos entregar nas mãos do Pai, enriquecido a aperfeiçoado, o dom que ele nos entregou no início e serão... “novos céus e nova terra nos quais a justiça habitará”! (2Pd 3,13)

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