Projeto Igrejas-irmãs articula revitalização 

Durante encontro, houve resgate histórico e propostas de revisão e atualização da iniciativa

Animando a missionariedade e a colaboração mútua entre Igrejas particulares no Brasil desde 1972, o projeto Igrejas-irmãs será revitalizado, com a revisão e atualização de suas perspectivas. É o que foi proposto no encontro realizado em Belém (PA), nos dias 17 e 18 de novembro. Várias ideias foram apresentadas na ocasião, quando 53 bispos, 22 padres, 11 leigos, três religiosas e dois diáconos, avaliaram a caminhada dos projetos Igrejas-Irmãs no Brasil, resgataram o histórico e o itinerário desses projetos, celebraram e valorizaram os passos dados e as conquistas; e identificaram os desafios atuais. 

O encontro realizado pela Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Missionária e a Cooperação Intereclesial da Conferência Nacional dos Bipsos do Brasil (CNBB) serviu para iluminar a caminhada realizada na perspectiva da animação e cooperação missionárias e perceber novas perspectivas para o encaminhamento futuro dos projetos Igrejas Irmãs, do qual fazem parte, principalmente dioceses e prelazias da região Amazônica. Neste sentido, a Comissão Episcopal para a Amazônia da CNBB foi parceira na realização do encontro.

Dezesseis propostas surgiram do encontro sobre as Igrejas-irmãs. Entre elas, levar em conta as realidades sociais, ambientais e urbanas da Amazônia, bem como o avanço organizado e articulado do neopentecostalíssimo; aprofundar o sentido do envio do missionário; esclarecer as responsabilidades de cada Igreja em relação ao envio e acolhida de missionários; definir melhor a participação de leigos no processo missionário; fortalecer a consciência missionária em toda a diocese; e incentivar os Conselhos Missionários.

As propostas ainda visam incentivar a visita de bispos, padres e leigos de uma Igreja-irmãs à outra; a colaboração para que a Igreja particular que recebe a ajuda alcance sua sustentação; a preparação de seminaristas, enfatizando as experiências missionárias, em especial de férias, para que sejam instrumentos de fortalecimento do impulso missionário; e a participação da Organização dos Seminários e Institutos Filosófico-Teológicos do Brasil (Osib) e do Conselho Nacional dos Presbíteros (CNP) no projeto.

Também foram ressaltadas indicações voltadas para a formação de lideranças e oferta de cursos específicos para os missionários, a partir do que já está disponível no Centro Cultural Missionário e nos institutos em Manaus, Belém e Porto Velho. Haverá ainda o levantamento dos missionários Ad Gentes, com a procura de ação conjunta com as novas comunidades envolvidas na missão além-fronteiras. Especial atenção será dada aos migrantes e pessoas que sofrem com o tráfico humano.

Os participantes do encontro pretendem abordar a temática em uma Assembleia Geral da CNBB.

Histórico 

“O projeto Igrejas Irmãs foi criado pela CNBB, em fevereiro de 1972, depois que a sua presidência visitou várias dioceses e prelazias da Amazônia. Nesse mesmo ano, os bispos da Amazônia estiveram reunidos em Santarém e elaboram um documento que ainda hoje é marca importante para o trabalho de evangelização na Amazônia”, conta o bispo auxiliar de São Luís e presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Missionária da CNBB, dom Esmeraldo Barreto de Farias. 

O objetivo do Projeto Igrejas-irmãs é partilhar a fé, os dons da graça, as experiências pastorais, pessoas e recursos financeiros como gestos de caridade cristã para com as Igrejas da Amazônia e outras também necessitadas. “A Igreja que envia missionários também é beneficiada pelas experiências que vê e das quais participa através dos missionários que foram enviados”, sublinha dom Esmeraldo.

Durante o encontro realizado em Belém, o vigário geral das Pastorais da arquidiocese de Belém (PA), padre Raimundo Possidônio da Mata, fez a retrospectiva histórica do projeto, destacando alguns desafios que a Igreja na Amazônia enfrenta hoje.

No início, o projeto teve forte repercussão e um grande número de missionários foi enviado para a Amazônia e para o Nordeste. Somente a diocese de Caxias do Sul (RS), pioneira nesse projeto, enviou de 1972 a 1985, mais de 100 missionários para as regiões.

De 22 a 25 de agosto de 1989, a comissão da CNBB responsável pela dimensão missionária organizou um encontro com representantes das Igrejas Irmãs. A fim de dinamizar o projeto, os bispos ressaltaram a missionariedade da Igreja, evangelização das culturas, atendimento a situações missionárias mais desafiadoras, a missão como eixo da formação. Os seminários e casas de formação, de acordo com os apontamentos dos prelados, deveriam proporcionar aos formandos a experiência da comunidade apostólica chamada ao seguimento de Jesus missionário. Também foi uma proposta da época a formação de um clero local, a participação dos leigos e a missão ad gentes. Também foi assumida a constituição de uma coordenação.

Partilha e apoio

Durante o encontro, os bispos e demais participantes tiveram oportunidade de partilharem suas experiências e de refletirem sobre os principais desafios. Dom Esmeraldo contou ainda que o bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM), dom Edson Damian, fez “um importante trabalho sobre a Igreja na Amazônia e a solidariedade no projeto Igrejas Irmãs”.

As palavras do arcebispo de Brasília (DF) e presidente da CNBB, cardeal Sergio da Rocha, animaram os participantes. Impossibilitado de participar por conta do consistório no qual foi criado cardeal, dom Sergio assegurou-lhes as suas orações, afirmando que levava consigo a Amazônia e a Missão para Roma e, particularmente para o papa Francisco, “que tem demonstrado, de modo admirável, tanto amor e solicitude pela Amazônia, em tantas ocasiões, como pude pessoalmente testemunhar”.

O presidente da CNBB considerou que o encontro teve “a esperança de fortalecer a comunhão e a cooperação intereclesial” e que serviu de estímulo para a partilha e o compromisso missionário da Igreja no Brasil com a Igreja na Amazônia Legal. “Os projetos missionários desenvolvidos na Amazônia com o generoso apoio das Igrejas Irmãs servem de sinal, recordação e incentivo para que toda a Igreja no Brasil seja, de fato, missionária, ‘em estado permanente de missão’, também além-fronteiras das Igrejas particulares. Esperamos, com a graça de Deus, redobrar os esforços”, desejou o cardeal.