“As vítimas das guerras imploram paz”, diz o papa Francisco

Dia Mundial de Oração pela Paz fez parte do evento “Sede de Paz. Religiões e Culturas em diálogo”

O papa Francisco foi hoje, dia 20, a Assis, na Itália, para celebrar os 30 anos do histórico Encontro de Oração pela Paz, realizado no dia 27 de outubro de 1986, por iniciativa de São João Paulo II. De acordo com a Rádio Vaticano, cerca de 500 líderes religiosos e personalidades da política e da cultura estiveram presentes. O Dia Mundial de Oração pela Paz fez parte do evento “Sede de Paz. Religiões e Culturas em diálogo”, promovido pela diocese de Assis, Famílias Franciscanas e Comunidade de Santo Egídio. 

Na ocasião, o papa Francisco reuniu-se com os representantes cristãos na Basílica inferior de São Francisco para a oração ecumênica. Em sua meditação, o pontífice destacou que as palavras de Jesus são interpeladoras, pois pedem acolhimento no coração e resposta com a vida. “Na sua exclamação ‘tenho sede’, podemos ouvir a voz dos que sofrem, o grito escondido dos pequenos inocentes a quem é negada a luz deste mundo, a súplica instante dos pobres e dos mais necessitados de paz”, disse Francisco.

As vítimas das guerras “que poluem os povos de ódio e a terra de armas”, segundo o pontífice, imploram paz. Também o fazem aqueles que vivem sob a ameaça dos bombardeamentos ou são forçados a deixar a casa e emigrar para o desconhecido, despojados de tudo. “Todos eles são irmãos e irmãs do Crucificado, pequeninos do seu Reino, membros feridos e sedentos da sua carne. Têm sede. Mas, frequentemente, é-lhes dado, como a Jesus, o vinagre amargo da rejeição”, disse.

Encontro

O papa Francisco celebrou pela manhã na capela da Casa Santa Marta e seguiu para Assis, onde chegou de helicóptero às 10h55. O pontífice foi de carro até o Sacro Convento de Assis, onde foi recebido, entre outros, pelo patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I; o patriarca Sírio-ortodoxo de Antioquia Ignatius Efrem II; pelo vice-presidente da Universidade de Al-Azhar, no Egito, Abbas Schuman; pelo arcebispo de Cantuária e primaz da Igreja Anglicana Justin Welby; pelo rabino chefe de Roma, Riccardo di Segni, entre outros.

Juntos, dirigiram-se ao Claustro de Sisto IV, onde aguardavam representantes de Igrejas e Religiões de todo o mundo, além dos Bispos da Úmbria. Francisco saudou um a um os presentes. Às 13 horas, no refeitório do Sacro Convento, aconteceu um almoço comum, do qual participaram 12 refugiados provenientes de países em guerra, atualmente acolhidos pela Comunidade de Santo Egídio.

O encontro com os representantes cristãos na Basílica inferior de São Francisco para a oração ecumênica ocorreu na parte da tarde, quando o papa fez sua meditação sobre as palavras que ressoam ao contemplar Jesus crucificado: “Tenho sede!”. Para o pontífice a sede é, “ainda mais do que a fome, a necessidade extrema do ser humano, mas representa também a sua extrema miséria. Não necessitamos somente de água, mas sobretudo de amor, ‘elemento não menos essencial para se viver’”.

Neste momento de encontro foram acesas velas recordando os países passam por guerras.

Ao final do evento, Francisco agradeceu aos representantes das Igrejas, Comunidades cristãs e Religiões pela presença e participação. Ele lembrou que todos se encontravam reunidos em Assis como peregrinos à procura da paz, movidos pelo desejo de testemunhá-la, sobretudo pela necessidade de rezar por ela, “porque a paz é dom de Deus e cabe a nós invoca-la, acolhê-la e construí-la cada dia com a sua ajuda”, frisou.

“Sair, pôr-se a caminho, encontrar-se em conjunto, trabalhar pela paz: não são movimentos apenas físicos, mas sobretudo da alma”, acrescentou, “são respostas espirituais concretas para superar os fechamentos, abrindo-se a Deus e aos irmãos. É Deus que no-lo pede, exortando-nos a enfrentar a grande doença do nosso tempo: a indiferença”, disse o papa.

 

Leia o pronunciamento do papa aos representantes cristãos:

"À vista de Jesus crucificado, ressoam também para nós as suas palavras: «Tenho sede!» (Jo 19, 28). A sede é, ainda mais do que a fome, a necessidade extrema do ser humano, mas representa também a sua extrema miséria. Assim contemplamos o mistério do Deus Altíssimo, que Se tornou, por misericórdia, miserável entre os homens.

De que tem sede o Senhor? Certamente de água, elemento essencial para a vida; mas sobretudo de amor, elemento não menos essencial para se viver. Tem sede de nos dar a água viva do seu amor, mas também de receber o nosso amor. O profeta Jeremias expressou o comprazimento de Deus pelo nosso amor: «Recordo-Me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado» (Jr 2, 2). Mas deu voz também ao sofrimento divino, quando o homem, ingrato, abandonou o amor, quando – parece dizer também hoje o Senhor – «Me abandonou a Mim, nascente de águas vivas, e construiu cisternas para si, cisternas rotas, que não podem reter as águas» (Jr 2, 13). É o drama do «coração árido», do amor não correspondido; um drama que se renova no Evangelho, quando, à sede de Jesus, o homem responde com vinagre, que é vinho estragado. Como profeticamente lamentou o salmista, «deram-me (…) vinagre, quando tive sede» (Sal 69/68, 22).

«O Amor não é amado»: tal era, segundo algumas crónicas, a realidade que turvava São Francisco de Assis. Por amor do Senhor que sofre, não se envergonhava de chorar e lamentar-se em voz alta (cf. Fontes Franciscanas, n. 1413). Esta mesma realidade nos deve estar a peito ao contemplarmos Deus crucificado, sedento de amor. Madre Teresa de Calcutá quis que, nas capelas de cada comunidade, estivesse escrito perto do Crucifixo: «Tenho sede». Apagar a sede de amor de Jesus na cruz, através do serviço aos mais pobres dos pobres, foi a sua resposta. Na verdade, o Senhor é saciado pelo nosso amor compassivo; é consolado quando, em nome d’Ele, nos inclinamos sobre as misérias alheias. No Juízo, chamará «benditos» aqueles que deram de beber a quem tinha sede, aqueles que ofereceram amor concreto a quem estava necessitado: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40).

As palavras de Jesus interpelam-nos, pedem acolhimento no coração e resposta com a vida. Na sua exclamação «tenho sede», podemos ouvir a voz dos que sofrem, o grito escondido dos pequenos inocentes a quem é negada a luz deste mundo, a súplica instante dos pobres e dos mais necessitados de paz. Imploram paz as vítimas das guerras que poluem os povos de ódio e a terra de armas; imploram paz os nossos irmãos e irmãs que vivem sob a ameaça dos bombardeamentos ou são forçados a deixar a casa e emigrar para o desconhecido, despojados de tudo. Todos eles são irmãos e irmãs do Crucificado, pequeninos do seu Reino, membros feridos e sedentos da sua carne. Têm sede. Mas, frequentemente, é-lhes dado, como a Jesus, o vinagre amargo da rejeição. Quem os ouve? Quem se preocupa em responder-lhes? Deparam-se muitas vezes com o silêncio ensurdecedor da indiferença, o egoísmo de quem se sente incomodado, a frieza de quem apaga o seu grito de ajuda com mesma facilidade com que muda de canal na televisão.

À vista de Cristo crucificado, «poder e sabedoria de Deus» (1 Cor 1, 24), nós, cristãos, somos chamados a contemplar o mistério do Amor não amado e a derramar misericórdia sobre o mundo. Na cruz, árvore de vida, o mal foi transformado em bem; também nós, discípulos do Crucificado, somos chamados a ser «árvores de vida», que absorvem a poluição da indiferença e restituem ao mundo o oxigénio do amor. Do lado de Cristo, na cruz, saiu água, símbolo do Espírito que dá a vida (cf. Jo 19, 34); do mesmo modo saia de nós, seus fiéis, compaixão por todos os sedentos de hoje.

Como a Maria ao pé da cruz, conceda-nos o Senhor estar unidos a Ele e próximos de quem sofre. Aproximando-nos de quantos vivem hoje como crucificados e tirando a força de amar do Crucificado Ressuscitado, crescerão ainda mais a harmonia e a comunhão entre nós. «Com efeito, Ele é a nossa paz» (Ef 2, 14), Ele que veio anunciar a paz àqueles que estavam perto e aos que estavam longe (cf. Ef 2, 17). Ele nos guarde a todos no amor e nos congregue na unidade, para nos tornarmos o que Ele deseja: «um só» (Jo 17, 21)".

 

Com informações e foto da Rádio Vaticano